O Acidente – Alan Victor Meyer

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Por Alan Victor Meyer*

Resumo

O presente artigo procura expandir considerações feitas pelo autor num artigo de 1999, volume 32, “A Psicanálise na época da Ciência e da Técnica: O Sentido do Humano”.  Procurava então refletir sobre as raízes do mal estar no mundo contemporâneo. Agora, sob o impacto de uma exposição em Paris no ano passado (2002), na “Fondation Cartier pour l’Art Contemporain”, denominado “Ce que arrive”, prefiguração de um Museu do Acidente, procura tratar de temas mais específicos. Aborda os temas fundamentais da exposição: velocidade, acidente, atentado e risco, referidos à aceleração vertiginosa das inovações técnico-científicas no mundo atual. As conseqüências imprevisíveis em todas as esferas do humano, implica numa “quantidade desconhecida”, para a qual a psicanálise precisa estar sensibilizada.

Summary: “The Accident”

The present paper expands ideas developed by the author in another, published in 1999, in this Jornal, volume 32, “Psychoanalysis in the era of  Science and Technology: The Meaning of the Human”. The roots of the discontent of the contemporary world, where then considered. Now, under the impact of an exhibition in Paris last year (2002), at the “Fondation Cartier pour l’Art Contemporain”, entitled “Ce que arrive”, which prefigures a Museum of the Accident , more specific themes are dealt with. The basic themes of the exhibit: velocity, accident, attack and risk, are considered in relation to the vertiginous acceleration of techno-scientific innovations in the contemporary world. The unpredictable consequences in all human fields, implies in an “unknown quantity”, for which psychoanalysis  must be touched.

Unitermos:  Psicanálise, Ciência e Tecnologia, Mal Estar na Cultura Contemporânea, Velocidade, Acidente, Atentado, Risco, Incerteza, Ruptura de Campo.

Uniterms: Psychoanalysis, Science and Technology, Civilization and its Discontents in the Contemporary World, Speed, Accident, Attack, Risc, Uncertainty, Field Rupture

Em 1999, publiquei nesse Jornal um artigo intitulado “A Psicanálise na época da Ciência e da Técnica: O Sentido do Humano”[1], onde abordei o mal estar da nossa civilização a partir das considerações feitas por Heidegger sobre a ciência e a técnica e as conseqüências ontológicas para a compreensão do homem. Essa abordagem implica em toda uma interpretação da história da metafísica ocidental a partir da questão do ser. Recupera a noção de verdade como desvelamento (alethéia), transformado, já em Platão, para o de olhar exato (orthotés), origem remota da noção habitual de verdade enquanto adequação do mundo ao intelecto, base para o pensamento científico. Além da sua importância para pensar a raiz de toda problemática hodierna do homem, tem sua relevância para a psicanálise por permitir uma retomada mais originária do humano, evitando sua re-psicologização em moldes pseudocientíficos, recolocando a metapsicologia em toda sua dimensão prático-poética. Não vou retomar essas questões, para mim fundamentais, e remeto o leitor interessado a esse texto. Nesse trabalho gostaria de levantar questões mais específicas, nunca esquecendo essas considerações de base. O específico, refere-se às mudanças no mundo contemporâneo, que adquirem uma aceleração de velocidade de tamanha monta, em termos de inovações técnico-científicas, que se for verdade que a quantidade leva a um salto de qualidade, talvez seja impossível estimar em que a humanidade vá se transformar ou até se irá sobreviver.

No ano passado (2002), em Paris, na “Fondation Cartier pour l’Art Contemporain”, Paul Virilio montou uma exposição extraordinária sob o título “Ce qui arrive” (O que acontece, corresponde a definição do latim ‘accidens’)[2], prefiguração de um Museu do Acidente. A mesma fundação, há dez anos atrás, promoveu uma exposição sobre “A Velocidade”, organizada em Jouy-en-Josas.  “Um traço, entre todo distintivo, opõe a civilização contemporânea àquelas que a precederam: a velocidade. A metamorfose produziu-se no espaço de uma geração”[3], constata, nos anos trinta, o historiador Marc Bloch. A aceleração da velocidade continua até hoje num ritmo alucinado, dos transportes por terra, mar e ar, nos meios de comunicação, na multiplicação dos inventos tecnológicos e nos próprios modos de existir. Essa situação relativa à velocidade implica num segundo traço, a do acidente. Os “acontecimentos catastróficos afetam não apenas as realidades do momento, mas causam angústia e ansiedade para as gerações futuras.”[4]. Nossa vida quotidiana está cada vez mais sujeita ao que acontece “ex abrupto”, àquilo que produz susto (“Schreck “é o termo usado por Freud) ao romper a camada protetora (paraexitação). Estamos diante de uma nova figura do desamparo (Hilflösigkeit), decorrente das invenções técnico-científicas, que nas origens visavam nos proteger do inóspito da natureza. Somos em geral impotentes e vítimas diante desses acontecimentos inesperados e catastróficos.

Ao sair da exposição, num clima um tanto acachapante, somos convidados a refletir sobre a massa de informações que nos é transmitida. Observando o público, vê-se que ninguém fica indiferente. Num dos filmes exibidos aparecia o incêndio do zepelim Hindenburg, quase um ícone da ascensão e queda, ao retomar o sonho de Ícarus. Acidentes de todo tipo se sucedem: Titanic, desastres ferroviários, armas químicas, etc. O de Tchernobyl, além das imagens, inclui uma conversa entre Virillo e Svetlana Alexievitch que escreveu um livro intitulado “La Supplication, Tchernobyl, chroniques du monde après l’apoccalypse” escrito em 1998. A conversa está reproduzida no catálogo da exposição e aponta para uma “quantidade desconhecida”. Algo misterioso e impensável, uma ruptura colossal com o passado. Uma ruptura de campo sem amanhã.  Não cabe aqui entrar em detalhes, mas assistimos ao diálogo com a cabeça enfiada numa caixa escura, e lá dentro, era possível ver os personagens andando de um lado para outro enquanto conversavam, um filme tridimensional, suponho holográfico! A sensação era tremenda, uma discussão impressionante, num mundo virtual. Onde a realidade? Estranho sentimento de falta de fundamento. Em outro momento o artista Wolfang Staehle tinha decidido fazer um registro em tempo real, duração de 24 horas, de uma vista panorâmica do sul de Manhattan. Sua intenção era registrar essa visão, numa perspectiva renascentista, mas como era 11 de Setembro, acabou sendo testemunha involuntária do acidente-atentado (mais adiante retomaremos essa aproximação). A experiência dessa exposição, dada a sua abrangência, e a dimensão catastrófica que transmite, fica mais para um Museu dos Horrores. Gostaríamos de pensar que nada tem a ver conosco, afinal até aqui escapamos, mas sabemos que estamos todos no mesmo barco.

Virillo lembra Aristóteles na frase “o acidente revela a substância”, e tira a conclusão de que a invenção da substância é igualmente aquela do acidente[5] . Podemos aqui entender por substância a produção no Real de novos inventos tecnológicos. Jogando com esse duplo sentido de acidente, enquanto qualidade secundária e evento catastrófico, pode-se dizer que o naufrágio do Titanic é uma qualidade secundária, mas intrínseca, da navegação marítima. Do mesmo modo que o acidente de Tchernobyl o é da central nuclear. Poderíamos então afirmar que se desvela uma dimensão inconsciente do artefato técnico-científico, por meio da ruptura de campo produzido pelo acidente. Nesse sentido é possível dizer que o acidente se constitui em uma forma de análise, um modo de desvelamento de dimensões obscuras implícitas no saber tecno-científico, que nosso autor chama de techno-análise[6].

Essa revelação acidental, cada vez mais freqüente, vai se espalhando por todas as áreas, não só as tradicionais como a dos transportes, mas se estende à química, à biotecnologia, à energia, à telecomunicação, à informática, à física nuclear, ao próprio funcionamento dos mercados (crash das bolsas), etc. Junte-se a isso a velocidade da produção de novos conhecimentos científicos, acompanhados de novas aplicações práticas, implicando numa aceleração constante dos acidentes artificiais, para distingui-los, caso isso seja possível, dos acidentes naturais, quando não submetida à influência do homem (por ex. a queda de um meteorito). Essa nova forma museológica, visa em primeiro lugar, por em destaque essa problemática, para que possa ser pensada e não apenas operar de forma recalcada. Não tem por finalidade criar um clima apocalíptico, nem juntar-se às visões escatológicas, mas procura fazer com que tomemos a sério o âmbito do acidente. Não levar em conta as conseqüências fatais de nossas invenções, seria uma verdadeira loucura, uma abdicação da filosofia, em favor da “philofolie” (filo-loucura, como diz Virillo[7]). Nesse caso seria difícil escapar de uma dimensão escatológica. Hans Jonas, antigo aluno de Heidegger, baseado em seu “princípio de responsabilidade”, propõe um “projeto de ética para a civilização tecnológica, radicalmente distinto dos sistemas éticos tradicionalmente herdados da história da metafísica”[8]. Diz Jonas, ao tratar do rompimento com o antropocentrismo: “O direito exclusivo do homem a humana consideração e à observância ética foi rompido precisamente com a conquista de um poder quase monopolístico sobre toda outra vida”[9].  E termina seu texto, após salientar o elemento tirânico na técnica atual, “que transforma nossas obras em nossos senhores …” , com um apelo: “Em razão da autonomia humana, da dignidade que exige que nós tenhamos a posse de nós próprios e não nos deixemos possuir por nossas máquinas, temos que trazer sob controle extratecnológico o galope tecnológico”[10].

O 11 de Setembro, ao lançar mão de meros aviões comerciais para fins destrutivos, ao invés de instrumentos militares, cria “uma confusão fatal entre o atentado e o acidente”[11]. Surge, por assim dizer, um acidente voluntário, por nova ruptura de campo, ao desvelar uma nova possibilidade do artefato técnico. O espanto que causou o uso de simples aviões comerciais como bomba, bastando aos seus perpetradores estarem dispostos a morrer no ato, alimentou imediatamente a fantasia de outras possibilidades. Estava assim ampliado instantaneamente o campo da paranóia. É o caso do apagão de toda região noroeste dos EUA, quando as primeiras notícias chegavam recheadas de especulações quanto à causa do acontecido, se acidente ou atentado. Após a confirmação de que se tratava de um acidente, o mundo parecia respirar aliviado. Aqui as coisas ficam mais complicadas em termos do princípio de responsabilidade de Jonas. A pretensão de estabelecer algum tipo de controle sobre a tecnologia, apesar de inúmeras reflexões éticas a respeito, não é nada animadora. Mas quando o acidente é voluntário, adentrando a esfera do atentado, a questão fica quase insolúvel. Há concomitantemente um custo imensurável para as liberdades individuais, ao colocar a segurança no topo da agenda política e social.

Aqui, não poderia deixar de lembra a ampliação da noção de atentado feita por Hermann[12], ao considera-lo ato puro, resultado da sua desconexão de todo sentido. Sua análise é complexa, fundada na teoria dos campos, cuja argumentação não cabe acompanhar nesse artigo. Entretanto, diria que a noção de atentado na sua abordagem, vai adquirindo uma espessura polissêmica. O atentado não será apenas o atentado violento, como o de 11 de Setembro ou ao Papa João Paulo II, mas todas as formas que atentam a possibilidade de ser do homem. A miséria a que é relegada grande parte da humanidade, tanto a miséria econômica, quanto a miséria do modo de ser, tão bem lembrado por ele no poema de Eliot, “The Hollow Men” (Os Homens Ocos). Nessa perspectiva, Herrmann vai desencovar aspectos do político, caracterizado pela vigência do campo, denominado por ele, o regime do atentado. A partir de suas análises, parece-me possível concluir, que o próprio regime do atentado pode ser visto como acidente das condições da modernidade, desvelando um aspecto de seu lado obscuro ou inconsciente relativo.

Pensando justamente do lado político e da segurança no mundo, Celso Lafer aponta as mudanças ocorridas na segunda metade dos anos 90, por ter se acentuado “o vigor das forças centrífugas e o ímpeto da sublevação dos particularismos”.  “Num mundo globalizado, que opera em redes, dilui-se a diferença entre “interno” e “externo”. Daí uma importante “desterritorialização” da política internacional…”. E continua: “o controle dos meios de força, juntamente com outros recursos de poder, está não apenas nas mãos dos Estados, mas também nas de outros tipos de entidades não organizadas com base territorial. Se a isso se agregar que o atual contexto internacional oferece muitas oportunidades para a operação em rede do lado obscuro da sociedade mundial, como é o caso do crime organizado, do tráfego de drogas e de armas, dos extremistas de toda espécies, é fácil compreender por que a ordem é improvável.”[13] O que me chama atenção é que Lafer aponta uma mudança radical a partir de meados dos anos 90, mostrando como toda a esperança do início dos anos 90 se esvaiu rapidamente.

Velocidade, acidente e atentado, como vimos tratando, remete-nos também a tão propalada caracterização de nossa sociedade como “sociedade de risco”[14]. Os riscos são justamente os mencionados acima, oriundos da intervenção política, econômica, científica e tecnológica na natureza e na sociedade, com todas as suas conseqüências. Celso Lafer, lembra o 11 de Setembro, ao afirmar: “O potencial do inesperado torna a prospectiva da previsão um esquivo exercício da razão prudencial. Este exercício se complica em função do risco, que é um conceito distinto da sorte ou da fortuna, porque associa o perigo à incerteza”[15]. Assim, ao invés de aumentar o campo da previsibilidade e certeza, é o campo da incerteza que cresce assustadoramente. Estamos justamente na dimensão do “ce que arrive”, do acidente. A questão do processo decisório torna-se extremamente difícil, senão impossível, pois somos obrigados a decidir, sem realmente conhecer as conseqüências de nossas decisões. A intenção desses teóricos, segundo Zizek, é querer estabelecer uma nova agenda para a modernidade, levando em conta o risco e a incerteza manufaturada. Mas Zizek os critica, ao não levar em conta “o impacto da nova lógica social emergente sobre o próprio status fundamental da subjetividade”[16]. E propõe à psicanálise um lugar privilegiado para pensar o “Unbehagen (Mal Estar) na Sociedade de Risco”. O colapso da tradição e da natureza como lócus privilegiado em que o homem encontrava alguma forma de fundamento para o existir, obriga-o agora a decidir tudo em sua vida, tornando-o presa de uma refelxividade enlouquecida. Mas a situação é ainda mais grave para Zizek, pois é a própria ordem simbólica que deixa de funcionar com o advento da sociedade de risco. Estamos próximos ao ato puro, ao atentado de Hermann, ao ato que é seu próprio pensamento. Apesar das críticas de Zizek, parece-nos significativo que um grupo de pensadores, cuja influencia na política atual se consubstancia na “terceira via”, com a participação de Tony Blair, Bill Clinton, Fernando H. Cardoso, Lionel Jospin, entre os mais destacados, procurem pensar a modernidade, levando a sério a dimensão do risco.

O risco é omnipresente, desde os menores e mais localizados, até os maiores e mais generalizados e, não sabemos onde vai surgir o próximo acidente ou atentado. Passamos a conviver com um desconhecido sinistro e ameaçador. Os habitantes de Nova York estão em constante alerta. Quando entramos num avião começamos a olhar desconfiados ao demais passageiros; no metrô, qualquer odor nos faz lembrar do gás sarin; ao parar num farol em São Paulo ficamos ansiosos, e assim por diante. Fica até comum e habitual, pois passamos a conviver com uma paranóia de fundo, mas não sem conseqüências ao modo como vivemos. Aí, sem aviso prévio, o inesperado esperado acontece, e entra em ação a imensa rede de comunicação, repetindo o fato incessantemente, como no 11 de Setembro. As mesmas imagens repetidas sem parar em todas as estações de TV,  radio e  internet, numa busca desenfreada para tapar uma ferida aberta, através de um processo de sobreexposição. Somos tomados pelo tema único, todos falam da mesma coisa, e os afetos de horror ficam sincronizados. Estamos diante da experiência traumática que transborda para a psique do real, e para se tornar suportável, deve ser submetida a compulsão à repetição.

Nessas considerações está presente tanto a morte física como psíquica, que nos remete inexoravelmente para o “Além do Princípio do Prazer” de Freud. O homem em seu afã de dominar a natureza, inspirado pela noção de progresso, do qual o positivismo é fiel defensor, vê-se agora submetido a quase repetição compulsória de acidentes e atentados, relembrando a sua mortalidade, seu fim e sua finitude. O sonho de onipotência cobra o seu preço. Pede-se agora uma reflexão que envolve toda a humanidade, pois não só estão em jogo as mortes individuais, ou grupais, mas a possibilidade do extermínio da humanidade em sua totalidade. O ser-para-a-morte como estrutura do ser do homem, horizonte que o instaura na futuridade, e portanto na sua complexa temporalidade, condição para uma vida com sentido, vê-se ameaçado de esmagamento. O supremo acidente para a condição humana, é o acidente do tempo, a perda de sua complexa e íntima temporalidade. A destruição catastrófica, como fim absoluto, cria um ralo, pelo qual se esvai todo sentido, onde não é mais possível a construção dos liames mínimos para a possibilidade de ser. Para todos que se preocupam com essas questões, as palavras chaves são: perda de realidade, insegurança existencial, desubstancialização, vacuidade de ser, etc. E Virillo cita Malraux: “A cultura é o que faz do homem outra coisa que um acidente do Universo”[17]. E como a cultura depende do dom da linguagem e de sua origem poética, a possibilidade de sua destruição caberia na melancolia de uma linguagem interrompida.

A linguagem interrompida não é a sua ausência, mas sua devastação, ao ser reduzida a sua dimensão operatória e comunicativa. É o lugar do “todo mundo” (“man” em alemão, “on” em francês), do plural impessoal, da uniformização de tudo para todos. Os “Homens Ocos” de Eliot, são aqueles que perderam o dom da palavra e sua abertura para o Ser. No ato puro, traço do atentado, a palavra reduziu-se a um grunhido devastador. E sem uma palavra ressonante, a própria temporalidade se esfumaça, numa repetição vazia. Não é a negatividade fundante do ser-para-a-morte, mas a negação da negação, na superficialidade banal. No nosso mundo contemporâneo, isso que já era verdade para o século passado, deu um salto de qualidade pela globalização, por meio da mídia de massas, do marketing e da propaganda. É o “huis clos” (câmera fechada) audio-visual globalizado. No tempo mundial, “global time”, não há mais a complexa temporalidade da existência. As perturbações na rede do mundo, mexem com todo o mundo. É a estória da borboleta que bate as asas na China e causa uma tempestade em Oklahoma! A crise econômica na Tailândia levou ao quase naufrágio brasileiro. Subimos e descemos a montanha russa do tempo único, submetidos a uma passividade intolerável. O virtual acaba tendo conseqüências no real. O mundo é um todo espaço-tamporal sem fora, tornou-se interioridade, ou como prefere Herrmann, o psíquico derramou-se sobre o real do mundo, o que dá exatamente no mesmo. Nesse fechamento do mundo sobre si, as emoções ficam sincronizadas, como mencionamos ao falar do 11 de Setembro, mas também as telenovelas, só para dar um exemplo mais corriqueiro, tendendo no limite à homogenização afetiva, num fenômeno de massificação. A diferença e a singularidade desaparecem, num mundo científico e tecnologicamente cada vez mais complexo.

Esse desenho da adversidade do nosso tempo, no percurso impactante da exposição e texto de Virillo, que espero ter minimamente transmitido, não permite desconsiderar as novas modalidades e desafios da nossa  época. Enquanto analistas, temos que pensar nas conseqüências desse mundo em nós mesmos e em nossos analisandos. Não que tenha uma finalidade heurística, mas como “uma quantidade desconhecida”, para a qual devemos estar sensibilizados.

Análise, vem do grego “analuein”[18], e tem o sentido de desamarrar, dissolver, desatar, e por essa via procuramos recolher os fios que vão se desvelando. Nesse processo é inevitável esbarrar na resistência, como o que se opõe a essa via. E as formas de resistência são fortemente determinadas pelo mundo em que vivemos. A começar pela resistência à análise, uma vez que num mundo de tempo acelerado, não há o tempo para análise, que tem a sua duração. O grande acidente de nossa época, como nos diz Virillo, é o acidente do tempo. Um acidente que esmaga nossa complexa temporalidade. A forclusão do real, sustentado pelo imaginário alucinado da sociedade do espetáculo, reiterado pela mídia e propaganda, cria um tempo fora do tempo. Schaffa, inspirada em Agamben, nos diz: “Alcançar o sentido de nossa impossibilidade de traduzir em experiência os acontecimentos da vida exige a penetração nesse tempo de terrores e maravilhas exilados do cotidiano que reanimam sua história secreta”[19]. E a fala do analisando, junto ao seu analista, diz Fedida, “não visa somente exprimir um sofrimento psíquico, mas sobretudo a lhe permitir apropriar-se do que ele experimenta através das palavras pelas quais designa o vivido de seu estado”[20]. As palavras que designam, constituem a “poiésis” da análise, quando consegue romper as sucessivas camadas resistenciais e os afetos que a mantém. Só então, nesse corpo a corpo sofrido que é uma análise, na sua singularidade, será possível romper a clausura e abrir-se para o futuro, restituindo o aberto da existência. É necessário um mínimo de esperança e prazer, para  manter-se vivo e sustentar a posição de  analista!

 


Bibliografia:
Derrida, J., “Resistances of Psychoanalysis”, Stanford Univ. Press, Stanford, California, 1998
Fedida, P., “A Depressão: Questões Atuais” – transcrição de Sem. Temático de São Paulo, 10/1998
Hermann, F.(1977), Psicanálise do Quotidiano, Ed. Artes Medicas Sul Ltda, Porto Alegre, 1997
Herrmann, F.(1992), “Mal Estar na Cultura e a Psicanálise no Fim do Século” in   “Perturbador Mundo Novo”, SBPSP e Ed. Escuta, junho/1994
Lafer, C.(2003), “Governança e Risco” publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 08/2003
Lafer, C.(2003), “Reflexões sobre o 11 de Setembro”, artigo publicado no “Estado de São Paulo” em 21/09/2003
Jonas, Hans, “Porque a técnica moderna é um objeto para a ética”, trad. e apresentação Oswaldo Giacoia Jr, in “Natureza Humana”, V.no2 407-420, 1999
Meyer, A.V., (1998) “A Psicanálise na Época da Ciência e da Técnica: O Sentido do Humano”, in Jornal de Psicanálise, São Paulo, 32(58/59) 153-162, SBPSP, Nov.1999
Schaffa, S., “O Homem Psicanalítico e o Tempo – Linhas de Continuidade entre a Teoria dos Campos e Outra Produções Psicanalíticas” em “Psicanálise Hoje e Amanhã – O II Encontro Psic. da Teoria dos Campos por Escrito”, 165-180, Casa do Psicólogo, 2002
Virillo, P., “Ce qui arrive”, Catalogo da Exposição do mesmo nome, “Fondation Cartier pour l’Art Contemporaine”, Paris, 2002
Zizek, S.(1999), “The Tiklish Subject- the absent center of political ontology”, Verso, New York, 2000

Texto publicado no Jornal de Psicanálise da SBPSP
* Membro associado da SBPSP
[1] Jornal de Psicanálise, São Paulo, 32(58/59) 153-162, Nov. 1999
[2] Virillo P.”Ce qui arrive”, Catalogo da Exposição, Fondation Cartier pour l’art contemporain, Paris, 2002 (as pgs.do texto de Virllo indicarei por V. pg.)
[3] V. pg.5
[4] V. pg5
[5] V. pg.6
[6] V. pg.24
[7] V. pg.7
[8] Jonas, H. “Porque a técnica moderna é um objeto para a ética”, trad. e apresentação Oswaldo Giacoia Jr, em “Natureza Humana”, V.no2, 1999, pg. 407,  São Paulo.
[9] idem, pg.412
[10] idem pg.417
[11] V.pg.8
[12] Herrmann, F. (1997), Psicanálise do Qutidiano, cap.8, Ed. Arte Medicas Sul Ltda, Porto Alegre, 1997. Além desse texto, o tema é abordado em “Mal Estar na Cultura e a Psicanálise no Fim de Século” em “Pertubador Mundo Novo”, by SBPSP e Ed. Escuta junho/1994.
[13] Lafer, C. (2003), Reflexões sobre o 11 de Setembro, artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 21/09/2003
[14] Zizek, S.(1999), “The Tiklish Subjet – the absent center of political ontology”, pg.36, Verso, New York, 2000. Ele menciona o clássico de Ulrich Beck: “Risk Society: Towards a New Modernity”, London, Sage 1992 e Anthony Giddens: “The Consequence of Medernity”, Cambridge, Polity Press 1990.
[15] Lafer C. (2003), Governança e Risco, publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 08/2003
[16] Zizek, S., obra cit. pg.341
[17] V.pg.27
[18] Derrida, J. “Resistances of Psychoanalysis”, pg3, Stanford Univ. Press, 1998
[19] Schaffa, S. “O Homem Psicanalítico e o Tempo – Linhas de Continuidade entre a Teoria dos Campos e Outras Produções Psicanalíticas” em “O Psicanalista Hoje e Amanhã – O II Encontro Psic. da Teoria dos Campos por Escrito”, cap 4, pg.171, Casa do Psicólogo,2002.
[20] Fedida, P. “A Depressão: Questões Atuais” – transcrição de Seminário Temático de São Paulo – 10/1998

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