Estratégia

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Amaru

Conceito original

Na Ética a Nicômacos, Aristóteles diz que a vitória é a finalidade da estratégia, assim como a saúde é a finalidade da medicina. Em seu contexto original, estratégia significa decidir como empregar recursos – duração da ação, escolha do momento, treinamento, combatentes e equipamentos – para derrotar um adversário militar, seja numa situação de defesa ou de ataque. Esse objetivo implica necessariamente frustrar o adversário. É jogo de soma zero: perde-ganha. É intrínseca ao objetivo a existência do adversário – que se deve derrotar. Alternativamente, fazem-se alianças com o adversário e, ainda que temporariamente, ocorre um jogo de ganha-ganha. Ou mostra-se tamanho poder, que o adversário se sente desencorajado. Ou faz-se o adversário acreditar que se tem muito mais poder que na realidade. Essas já são especificidades da estratégia para derrotar o adversário ou não ser derrotado por ele.

No século XIX, o general prussiano Carl von Clausewitz escreveu seu tratado filosófico Da Guerra depois de participar ativamente das campanhas contra o Imperador da França – e de ser derrotado nelas. Clausewitz chegou a conclusões que ainda são válidas e presentes em todos os conflitos. A análise das batalhas e das campanhas sugeriu que há variáveis que não podem ser quantificadas nem previstas ou resolvidas a partir de fórmulas: estratégia não é ciência ou técnica, mas arte. Não há regras, a não ser a regra de que não há regras. Há muita importância na capacidade ou genialidade do líder. O acaso ou até mesmo a sorte acaba determinando o destino dos combates. Há eventos que podem ocorrer e que atrapalham os planos: um denso nevoeiro pode descer sobre o campo de batalha, obscurecendo a capacidade de julgamento do general. Essa imprevisibilidade acrescida do acaso é o que Clausewitz chamava de névoa da guerra. A expressão tornou-se metafórica, indicando toda a incerteza da situação.

Incerteza e planejamento

Estratégia é sinônimo de planejamento – antecipação operatória, como a chama Boutinet, ou forma pragmática de lidar com o futuro, que tenta transformá-lo ou nele realizar objetivos definidos no presente. A antecipação operatória é mais do que simplesmente antever, prever ou imaginar. As antecipações operatórias consistem em decidir e fazer acontecer. Planejamento é antecipação do tipo operatório porque busca provocar mudança ou nova situação no futuro – incluindo a estratégia como antecipação de futuro com incerteza – por meio da definição de objetivos e mobilização de recursos. Planejar, no fundo, envolve planejar, executar e controlar a ação. O processo de planejamento, nesse sentido de construção ou transformação deliberada do futuro, pode ser sumarizado numa frase de Alan Kay, um dos pioneiros da revolução digital e criador do Smalltalk:

  • “A melhor maneira de predizer o futuro é inventá-lo (The best way to predict the future is to invent it.).”

No quadro das modalidades de planejamento, a estratégia lida com a incerteza – quando há competição, falta de informações, imprevisibilidade, objetivos complexos ou de longo prazo a realizar, ou forte impacto das decisões sobre o desempenho de uma organização ou sistema. Quanto mais incerteza ou imprevisibilidade de uma situação, maior a necessidade de estratégia:

  • “Estratégia é um processo, uma adaptação constante a condições e circunstâncias cambiantes em um mundo dominado pelo acaso, pela incerteza e pela ambiguidade”.
  • “Estratégia é uma política imaginada para reduzir e controlar incertezas” (falta de informação e comportamento dos adversários).

Estratégia militar

Em sua origem, a estratégia está associada à guerra. Seja qual for o tipo de guerra, sempre há estratégias, mesmo a decisão de lutar até o último homem numa batalha campal, de emboscar o inimigo no meio da floresta, de fazer o inesperado e até de se fazer passar pelo inimigo e atacar os amigos, para convencê-los a entrar na guerra e combater os inimigos. A estratégia como arte da guerra envolve o sentido original do termo – a criação e execução de planos para a utilização do exército de forma a assegurar a vitória. A estratégia, definida dessa forma, é cadeia de causas e efeitos: sucessivas decisões e ações que conduzem aos objetivos. Os franceses, no século XVIII, assim como Clausewitz, fizeram a distinção entre o nível fundamental da guerra – a operação de combate, qualificada como tática – e a estratégia à qual esse nível fundamental estava subordinado. A cadeia de causas e efeitos vai da política ao combate, passando pela estratégia. Os nomes podem variar, mas o essencial é a noção de um encadeamento de decisões, mobilização de recursos e execução de ações para a realização de objetivos. O encadeamento começa na política, que alguns autores chamam grande estratégia ou estratégia geral.

O uso dos termos não precisa ser rigoroso e tanto podemos falar em tática como em estratégias operacionais (como se faz no mundo dos negócios) ou simplesmente estratégia. Podemos também falar em arte dos generais, já que a estratégia – pelo menos no domínio do qual estamos tratando aqui – é o trabalho dos generais, em conjunto com os políticos e governantes. A literatura sobre esse tema é abundante e nela se encontram inúmeras definições de estratégia. Algumas, como a do próprio Clausewitz, não se restringem às operações militares, mas invadem o terreno da política ou grande estratégia:

  • “… os meios de realizar os fins e objetivos do exército em qualquer campanha. É importante considerar quanto do comportamento do exército era ditado pela situação local e quanto refletia práticas padronizadas, aplicáveis a todas as situações.”
  • “Ciência e arte de desenvolver e utilizar forças políticas, econômicas, psicológicas e militares de uma nação ou grupo de nações a fim de conseguir o apoio máximo para as políticas adotadas em tempo de paz ou guerra.“
  • “Ciência e arte de desenvolver e utilizar forças políticas, econômicas, psicológicas e militares, em tempo de paz ou guerra, oferecendo o máximo de apoio para as políticas, conforme seja necessário para aumentar a probabilidade e as consequências favoráveis de vitória e minimizar a probabilidade de derrota.”
  • “…a arte de preparar um plano de campanha, de dirigir um exército sobre os pontos decisivos e de reconhecer os pontos sobre os quais é necessário, durante a batalha, colocar a maior quantidade de homens para assegurar o sucesso.”
  • “…a arte de empregar batalhas como meios para alcançar a finalidade da guerra. Em outras palavras, a estratégia forma o plano da guerra, mapeia o andamento proposto das diferentes campanhas e regula as batalhas a serem combatidas em cada uma.”
  • “… a arte de distribuir e aplicar meios militares para atingir as finalidades da política.”
  • “Todas aquelas (operações) que envolvem o conjunto do teatro da guerra são domínio da estratégia…”

Essas definições focalizam ora o momento do confronto, ora a preparação para esse momento culminante, como fazia Péricles. No domínio da preparação, a estratégia – como continuação da política – envolve a capacidade de fazer a guerra, onde quer que os estrategistas decidam. Isso torna instrumento primário de qualquer estratégia o exército – assim entendidas todas as forças armadas. Começa com o exército a importância das pessoas para a estratégia, princípio que se estende para todas as organizações e para a sociedade de forma geral. As pessoas, começando dos generais, são o principal recurso no processo de definir e assegurar a realização de objetivos. Os estrategistas do mundo empresarial, assim como seus precursores no mundo militar, sempre usaram esse princípio, de forma implícita ou explícita.


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