Violência: Considerações a respeito da gênese

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Neste breve ensaio a respeito da violência, sugere-se que conteúdos intrapsíquicos adquiridos ao longo da vida encontram-se nas raízes da sua prática. As ações voltadas ao combate da delinquência ganhariam em eficácia pela inclusão de estratégias relacionadas com a transformação da cultura contemporânea que a estimula.


Índices assustadores de delinquência colocam o Brasil em incômoda situação, comparando-se com outros países. O combate à delinquência solicita, entretanto, que se compreenda uma de suas causas-raízes, a violência.

O diagrama seguinte ilustra a relação entre violência e delinquência. A proporção entre as duas áreas é meramente ilustrativa.

VIOLENCIA GENESE

Dentro do universo da violência, a delinquência constitui um subconjunto. A toda delinquência corresponde um ato de violência; o inverso, entretanto, não se verifica.

Há uma violência habitual, com a qual as pessoas acostumam-se e convivem, corriqueiramente praticada nos ambientes social, laboral e familiar.

Difere da  violência pontual, eventual, causadora de espanto, reações imediatas (violentas ou não) e estresse.

A violência eventual aproxima-se mais da delinquência.Por exemplo, a agressão física. Perceba-se o colorido sociocultural na interpretação desse ato de violência: o que é agressão para uns, não o é para outros. Um tapa considerado insuportável para algumas pessoas, para outras simplesmente faz parte do contexto.

A sociedade brasileira situa no espaço da delinquência, com mais frequência, a agressão física; já a agressão psicológica não recebe idêntico tratamento. Dano moral, assédio moral, alienação parental constituem alguns exemplos reconhecidos de agressão psicológica que, aos poucos, ganham maior notoriedade, principalmente entre a população mais esclarecida quanto a seus direitos.

Este ensaio focaliza a ubíqua violência habitual,  física ou psíquica. Incorporada à rotina, desfruta da confortável invisibilidade comum a tudo o que compõe o caleidoscópico cenário do cotidiano e constitui um dos importantes degraus de acesso à delinquência. Daí sua importância para os Operadores do Direito.

Pequenos e desapercebidos atos de violência habitual compõem o vasto repertório dos comportamentos inadequados socialmente tolerados ou, até mesmo, apreciados, por significativa parcela da população.

Tal aceitação não os torna inócuos. Causam danos, à maneira da droga que, insidiosamente, mina corpo e mente, disfarçada sob a frágil cortina da ilusão do prazer imediato.

Das muitas formas de violência habitual, talvez a mais presente seja a violência acústica.

Em academias, shows públicos e privados, festas e eventos de todos os tipos, associam-se volume abusivo e baixa qualidade do som ambiente.

Faz parte da violência acústica a prisão a que se autocondenam milhões de indivíduos conectados, dia após dia, a aparelhos de som em volumes inacreditáveis, enquanto caminham, passeiam e, até mesmo, trabalham (!).

A violência contra a estética  evidencia-se nos espaços públicos. Sujeira e pichação, especialmente em regiões degradadas e ou mal cuidadas de grandes cidades, incorporam o feio à paisagem.

Inclua-se o cinturão de moradias precárias, eternamente inacabadas, que, em grande número de cidades, constitui a moldura social do desequilíbrio econômico.

Essa forma de violência estende-se ao corpo humano, marcado e mutilado com irresponsabilidade e perversa criatividade, principalmente por jovens – futuros clientes de cirurgias (mais ou menos) reparadoras.

Destaquem-se os ultrajantes modelos de estética corporal: elevam-se pessoas anatomicamente deformadas à condição de modelos. Incontáveis seguidores perseguem padrões (de beleza, de formato corporal, de desempenho físico) ao custo de severos e definitivos prejuízos psicofisiológicos.

Procedimentos, práticas, tratamentos, cirurgias provocam deformações definitivas, submetem suas vítimas ao escárnio e à humilhação e desviam tempo e recursos inacreditáveis. Violências socialmente aceitas.

Estratégias mercadológicas notáveis e notórias comandam a violência contra a saúde. Hábitos flagrantemente deletérios e responsáveis por inimagináveis custos sociais e econômicos, plantam dependências, doenças e prejudicam o equilíbrio físico e emocional.

O inocente “display” de cigarros das padarias de bairro comanda a compulsão para o tabaco por meio do modelo pão e fumo, exemplo singelo de como a agressão à vida encontra-se impregnada ao cotidiano. Nos convites à automedicação, exibidos na TV, percebe-se a cínica mensagem de encerramento: “se persistirem os sintomas, consultar o médico”, exibida e falada com tal velocidade que se torna incompreensível.

Contudo, talvez a pior de todas as formas seja a violência contra a linguagem.

Propaga-se e impulsiona-se a linguagem (em palavras e gestos) chula, irreverente, inadequada e rudimentar – sem qualquer moralismo piegas – com notável prejuízo para duas das mais importantes funções do psiquismo: o pensamento e  a linguagem.

Intimamente associadas, essas funções constituem a base sobre a qual se estrutura a visão de mundo dos indivíduos (Fiorelli e Mangini, 2015). Linguagem e pensamento pobres tornam raquíticas e deploráveis a  compreensão do presente e a idealização do futuro.

A linguagem constitui o principal veículo por meio do qual a violência habitual invade o mais sagrado dos recintos: o lar.

A inviolabilidade do lar é, com justa razão, basilar entre os direitos do indivíduo. A comunicação, entretanto, não respeita muros e grades. Os lares encontram-se relativamente escancarados no que possuem de mais sensível: a mente humana.

No lar, pais encarregam-se de empregar (e, portanto, transmitir) o linguajar da violência, desde os primeiros anos de vida. Fazem-no inconscientemente.

Percebidos como naturais e inofensivos, gestos e palavras incorporam-se à linguagem  e, portanto, ao pensamento. Farão parte do repertório comportamental da criança.

Palavras ofensivas e de baixo calão, gestos grosseiros e toscos, adquirem conotação de “liberdade de expressão”, de “despojamento”; simbolizam informalidade, companheirismo e “modernidade”. Ganham expressão em todas as situações de conflito, contribuindo para deslocar o pensamento racional e voltado para acordos satisfatórios.

Músicas, filmes, vídeos, programas de TV e outros elementos de comunicação juntam-se para condicionar as pessoas ao uso ou, no mínimo, à aceitação dessa linguagem medíocre, impregnada de violência.

Não se estranhe, pois, que os jovens – levando consigo esses conteúdos recolhidos do próprio ambiente familiar – elejam modelos que pratiquem e ratifiquem a apologia da violência.

Chega-se, assim, à prática corriqueira dos pequenos atos que caracterizam a violência habitual.

O social incumbe-se de validar e estimular esse comportamento. Basta observar o trânsito e suas consequências, explicitadas nos inúmeros assassinatos agasalhados sob o manto diáfano do homicídio culposo. A morte tornou-se banal no ambiente automotivo.

A violência, entretanto, faz parte da vida.

Contra o semelhante ou a natureza, a tendência a praticá-la é inata no ser humano. Foi, sem dúvida, indispensável à sobrevivência da espécie. Encontra-se presente desde o nascimento.

O desenvolvimento da civilização, entretanto, ensejou controlar o uso dessa força, por meio de ritualizações: esportes radicais, cerimônias de iniciação, aventuras esportivas ou profissionais etc.

Na adolescência, a ritualização da violência faz parte do importante processo de passagem para a idade adulta e cumpre o papel de “rejuvenescer o tecido social” (Maffesoli, 1987).

Contudo, afastada de sua dimensão ritualística, transforma-se em risco para a sociedade. Isso acontece quando empregada como antídoto para o tédio; por exemplo, em “rachas” e direção irresponsável – aí penetra-se no espaço da delinquência.

Atos de violência também possuem a função psicológica de obter reconhecimento – um mecanismo de defesa do ego para preservar a autoestima (Fiorelli e Mangini, 2015). Além de promover a excitação causada pela adrenalina, proporcionam espetáculo midiático que destaca os autores aos olhos da sociedade (Baudrillard, 1990). Os “minutos de fama”.

Esta sociedade contemporânea, acentue-se, marcada pelo espírito de competição e de individualismo prepara o indivíduo para competir, desde os primeiros anos de vida, contra os demais, em lugar de competir com os demais. O outro é percebido como um obstáculo, um virtual inimigo para as metas e objetivos pessoais.

Pessoas preparadas para encontrar adversários, em vez de colaboradores e colegas, escassamente desenvolverão sentimentos de cooperação e união. Na sociedade individualista, sem espaço para o fracasso, a tolerância e o perdão  – valores fundamentais em uma sociedade cooperativa – soarão estranhos. Prepara-se, assim, terreno fértil para as sementes da violência.

De todo esse quadro, resulta a cegueira psicológica coletiva  que leva as pessoas a desenvolver um sentimento de imunidade  – típico mecanismo psicológico de defesa do ego (Fiorelli e Mangini, 2015) à violência que paira no ar.

Por meio de dispendiosas estratégias, escapa-se, em parte, da violência física (daí ser esta mais habitual entre as classes pouco favorecidas economicamente).

Não existe, entretanto, fuga para a violência psíquica. O extraordinário consumo de medicamentos psiquiátricos constitui um preocupante sinal dessa realidade e a comprova de maneira cabal. A paz dispensa os divãs.

A cegueira psicológica coletiva alimenta o círculo vicioso da violência.

SÍNTESE

As pessoas, desde a infância, aprendem a conviver com atos de violência e  condicionam-se a praticá-los.

Ao longo da vida, ratificam esses comportamentos e elegem modelos que as estimulam à violência . Trata-se, pois, de um amplo e complexo processo psicossocial.

A violência combina com uma sociedade individualista, altamente competitiva e frágil em seus valores fundamentais.

Somente se combaterá a violência por meio de uma grande transformação cultural, com o objetivo de promover a paz.

Até que isso aconteça, as ações permanecerão focadas no resultado perceptível da violência, a incômoda ponta do iceberg: a delinquência.


REFERÊNCIAS  

BAUDRILLARD, J. A transparência do mal: ensaios sobre os fenômenos extremos. Campinas: Papirus, 1990.

FIORELLI, J. O., MANGINI, R. C. R. Psicologia Jurídica. 7 ed. São Paulo: GEN/ATLAS, 2015.

MAFFESOLI, M. A dinâmica da violência. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais/Edições Vértice, 1987.


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