Quando o Brasil vai lembrar dos professores?

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Red apple on teacher's desk.

Além de homenagear os professores, o mês de outubro é também momento de olhar com especial atenção para a educação no país, a partir de indicadores que, em geral, são divulgados neste período. Aí surge o paradoxo. Queremos celebrar os mestres e dizer-lhes o quanto são importantes e, ao mesmo tempo, nos deparamos com um cenário crítico, no qual faltam professores, sobram vagas na formação docente e o abandono do magistério aumenta. Situação ainda mais grave quando consideramos o baixo nível de aprendizagem dos estudantes brasileiros: o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), divulgado em setembro, mostrou que o ensino médio se mantém com nota 3,7 desde 2011.
Outubro se converte, então, numa oportunidade de ampla conscientização social sobre a necessidade de uma mudança radical e definitiva no tratamento que a nação dedica aos mestres. Afinal, não pode existir um sistema educacional de excelência com professores de nível mediano e baixa motivação. A não ser se tivéssemos uma nação de autodidatas, o que não é o caso. Um exemplo é Cingapura, que alcançou significativo sucesso na educação por valorizar os professores e inovar no processo de formação. Lá, um programa de trainee selecionou os melhores talentos e a profissão passou a ser cobiçada, o que permitiu condicionar a permanência no cargo ao nível de aprendizado dos alunos.

O Censo da Educação Superior 2015, divulgado pelo MEC no início do mês, mostra que os cursos de licenciatura, que habilitam quem leciona nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio, estão com matrículas estagnadas desde 2010, girando em torno de 1,4 milhão de estudantes. Destes, 71,6% são mulheres e 38,4% fazem o curso à distância.

Preocupa o tímido número de matrículas em licenciaturas importantes para o crescimento do país, como por exemplo, química e física: 2,5% e 1,7% das matrículas, respectivamente. Hoje, dos 27.886 professores que lecionam física, 68,7% não têm licenciatura na disciplina. Em química, 46,3%. Temos 42% dos professores de português e 51,3% dos professores de matemática também sem formação específica. Nesse cenário de apagão docente, e no atual ritmo, seria necessário mais de uma década apenas para que todos os professores tivessem a formação adequada. Para piorar o quadro, a potencial reforma do ensino médio proposta pelo MEC abre a porta para a entrada de professores leigos em muitas áreas.

O problema de fundo é que a profissão docente interessa cada vez menos, por diversos fatores: baixa remuneração, parco reconhecimento social, pouco ou nenhum apoio das famílias em problemas de violência e indisciplina dos estudantes, lacunas na própria formação inicial e continuada. É duro constatar que, no Brasil, o magistério está se tornando uma carreira de “passagem”. Hoje, 25% dos docentes brasileiros têm menos de 30 anos e apenas 12% estão com idade acima de 50. O efeito disso para a educação básica é o pior possível.

Se não pode existir um país de alto potencial onde não há educação de qualidade, a equação é simples e direta: precisamos de professores bem formados, motivados, talentosos e comprometidos com um plano de desenvolvimento do país. Nem os governantes das últimas décadas, nem os meios de comunicação, nem as famílias, nem a sociedade civil se conscientizaram da gravidade da situação. Talvez, assim como existe um “outubro rosa” ou um “novembro azul”, precisemos de um mês verde-amarelo para a trazer esta questão à tona.

Fonte: G1


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