Violência: no lar

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Retomamos o tema da violência, voltando agora o foco para o ambiente doméstico. Em ensaios anteriores, comentamos a respeito da disseminação do comportamento violento na sociedade. Agora, buscamos raízes no ambiente primário em que se estabelecem as características comportamentais de cada indivíduo: o lar. Nele, relevantes fatores concorrem para criar a predisposição para o uso da violência, como forma privilegiada de ação nos mais banais conflitos.

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Nos primeiros anos de vida o indivíduo adquire características essenciais que o acompanharão em sua existência. Nesse período da existência, ela constrói a base cognitiva de seus valores e princípios, identifica símbolos de alto significado que a acompanharão ao longo da vida, aprende uma linguagem, adquire informações e molda comportamentos por meio dos quais realizará suas interações com a sociedade.

Tratemos de cada um desses elementos.

a) Valores e princípios

Na infância ocorre a formação do que Sigmund Freud denominou “superego”, uma instância do psiquismo que atua como censora da “ego”. Ela representa as exigências da moralidade, com funções especialíssimas relacionada com os ideais, a auto-observação etc. (Freud, 1974: 70-71).

O superego constitui a força moral da personalidade, atento aos desvios de comportamento que possam distanciar o indivíduo dos seus próprios princípios morais.

Essa força moral começa a se estabelecer já nos primeiros anos de vida, quando a criança passa a discriminar os diferentes comportamentos dos pais nas situações em que os valores morais encontram-se em jogo.

Isso ocorre naturalmente, pois as crianças participam, na condição de ouvintes, dos mais diversos acontecimentos. Ao redor dos pais, aparentemente concentradas apenas em seus afazeres, apreendem tudo o que ocorre. Elas possuem admirável capacidade de prestar atenção a diversos objetos simultaneamente! Enquanto brincam, mantêm olhos e ouvidos atentos ao que ocorre a seu redor.

Quando os comportamentos parentais não o confirmam, de nada adiantam exortações parentais, do tipo “seja isto” ou “seja aquilo” ou “faça assim”, quando estas não guardam sintonia com os comportamentos nas situações em que seus valores são colocados à prova. Das situações mais banais extraem-se os exemplos mais contundentes:

– A criança percebe o relacionamento entre os pais e a empregada doméstica ou diarista – intui a dimensão entre a distância entre a fala e a ação.

– Ela escuta e interpreta os comentários e manifestações dos pais a respeito dos mais diversos acontecimentos do cotidiano.

– Não lhe faltam olhos e ouvidos para perceber comportamentos inadequados, atenuados pelo verniz transparente da cultura, no “furar uma fila”, no estacionar em “fila dupla”, ao obter uma pequena vantagem, ao descumprir um compromisso, em pequenas (e grandes) mentiras etc.

As questões que levam ao comportamento violento não se limitam, entretanto, à formação de um superego frágil, pouco ou nada exigente.

b) Símbolos

Crescemos em um mundo povoado por símbolos. O símbolo “significa sempre mais do que o seu significado imediato e óbvio”, ensina Jung (1991:55) e encontra-se incorporado à cultura dominante.

No lar, a criança é apresentada, desde cedo, a significativa parcela dos símbolos do mundo adulto. Os pais não o fazem conscientemente, pois os símbolos compõem a paisagem do lar.

Nos dias de hoje, é inegável que esses símbolos, com surpreendente frequência, apregoam a ampla utilização da violência.

Eles encontram-se, por exemplo, explícitos nas vestes e nos adereços.

Através de representações e mensagens, sugere-se a violência gratuita em camisetas, bonés e outras peças do vestuário. Pais e irmãos mais velhos desfilam portando essas representações – ainda que não pratiquem rotineiramente as mensagens veiculadas. Contribuem, entretanto, para banalizá-las.

Convites à violência são tatuados na pele.

Enquanto alguns marcam rosas, outros imprimem punhais. Mensagens de estímulo à agressividade incorporam-se às partes expostas do corpo. No lar, essa vitrine é continuamente exposta.

Símbolos sugestivos de violência adornam os objetos do desejo.

Eles encontram-se no(s) automóvel(is) e outros itens aos quais se outorga valor emocional, como capas de telefones celulares, telas de fundo de computadores e outros aparelhos de informação e comunicação. A primeira mensagem ao se observar o objeto é aquela que sugere a violência.

c) Linguagem

A criança, desde cedo, aconchega-se entre os pais e os irmãos para acompanhar a violência selecionada na televisão (ou outros veículos): ela aparece estilizada, embelezada por efeitos especiais, impulsionada pela presença de ídolos e incorpora-se, portanto, ao imaginário ficcional da família.

Existe uma linguagem impregnada de violência que é amplamente aceita e que faz parte da  linguagem familiar.

A violência, sem dúvida, encontra-se onipresente na natureza – inúmeros canais de TV paga o demonstram. Contudo, nessas situações, prevalece como pano de fundo o jogo da sobrevivência, que de modo algum é romântico. Ao ser apresentada à violência da natureza, a criança aprende que ela faz parte da existência e que resta ao ser humano adaptar-se para conviver com ela.

Contudo, na violência cultuada pelo humano, existe uma importante diferença: ela surge como pura expressão da maldade.

Essa linguagem, trazida pelos mais diversos meios e gerada, também, internamente ao lar, compõe-se de imagens, sons e palavras que passam a compor a linguagem da criança – os efeitos sobre o pensamento serão inevitáveis (Fiorelli e Mangini, 2016:20 a 25).

A criança cresce, pois, em um ambiente povoado por elementos que remetem à brutalidade, ao confronto, ao uso gratuito da força, à agressão. Esses elementos estarão presentes em sua linguagem e modo de pensar.

d) Informações

Destaque-se a fragilidade do diálogo familiar, fenômeno nefasto e merecedor de atenção.

O diálogo franco, prazeroso, de troca de ideias, impregnado de elementos de afeto e apaziguamento, constrói espíritos afáveis e dispostos a ouvir e compartilhar. Nas famílias em que as pessoas refugiam-se em seus aparelhos eletrônicos perde-se tal oportunidade, conferindo proeminência ao linguajar trazido pelas comunicações.

Um sem número de jogos e diversões de acesso ubíquo a crianças (de todas as idades e condições socioeconômicas) é pontuado por uma linguagem (palavras, ações e imagens) extremamente agressiva, ríspida, grosseira e desprovida de conteúdos que convidam a comportamentos cooperativos e socialmente construtivos.

As crianças – de todas as classes sociais – deixam-se hipnotizar por tais instrumentos de lazer. Através deles constroem um mundo fantasioso, em que os comportamentos violentos constituem o lugar comum.

Esse cenário de fantasia infantil encontrará, mais tarde, ampla ressonância (a) nos noticiários, que confirmam um mundo real cada vez mais próximo do virtual e (b) nas relações sociais fora do ambiente doméstico, em que a violência encontra-se latente.

e) Comportamentos

A criança percebe a maneira com que os progenitores e outros familiares tratam-se mutuamente. Ainda que seu mundo de fantasia fosse povoado de agressões, isso seria relativizado em sua interpretação caso, no concreto das relações familiares, o oposto ocorresse.

Infelizmente, evidencia-se crescente ampliação de comportamentos agressivos nas relações domésticas – uma ínfima parcela ganha espaço midiático quando resulta em queixas oficializadas por meio dos boletins de ocorrência.

Os comportamentos agressivos ganham impulso com a disseminação da linguagem agressiva. Para surpreendente parcela da população, o uso dessa linguagem constitui forma de demonstrar coisas como “liberdade”, “desprendimento”, “modernidade”. Adultos juntam-se e o vocabulário agressivo, permeado de gestos e palavras correspondentes, ganha evidência.

Isso inclui bebida, jogo, acesso a drogas e, também, a extensões da ação doméstica, como a direção agressiva e/ou criminosa no trânsito. A criança percebe que, um dia, também poderá comportar-se assim.

A criança expectadora compreende que terá novas liberdades quando adulta, como se existisse um momento em que “o ruim passa a ser autorizado”. O comportamento – linguagem e gestos – incorpora-se ao cotidiano e constitui mais uma ferramenta para alimentar a disposição para a ação violenta.

Não faltarão oportunidades para que isso se consolide no lar. As lutas pelo poder, as “pequenas deslealdades” – as separações, que constituem muitas vezes o coroamento da violência, com a ruptura do lar – incumbem-se de completar a receita.

Em inúmeros lares, a agressão compõe o cotidiano. Quando o agressor é o líder da família, o modelo (Fiorelli e Mangini, 2016: 82), será o comportamento dele  que ela será levada a replicar quando tiver força e oportunidade para tal. Muitas o farão.

SÍNTESE

A criança aprende: a violência física não apenas faz parte da vida, mas é essencial a ela; fala e gesto agressivos são as formas de se comunicar.

O que vê nas relações entre irmãos e pais, replicará com outras pessoas. Percepção que se ratifica na adolescência, no convívio com os grupos, onde os comportamentos violentos recebem reforço.

Percebe a sociedade alheia a esses fatos. Punições, se existirem (absolutamente improvável), serão desproporcionais aos atos.

As diferenças sociais e econômicas encarregam-se de estabelecer estilos próprios, mas a violência fica demarcada como opção válida no processo de comunicação. Incorpora-se aos mecanismos mentais; aos esquemas de pensamento.

Pela força não se diminui a propensão à violência. Pois violência gera mais violência.

Quando a violência deságua na delinquência enquanto forma de sobrevivência, a transformação comportamental torna-se um desafio extraordinário para a Sociedade.


Referências

FREUD, S. Obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

JUNG. C. G. A natureza da psique. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1991.

FIORELLI, J. O.; MANGINI, R. C. R. Psicologia Jurídica. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2016.


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2 respostas para “Violência: no lar”

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