O craque discreto

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Nos esportes disputados por equipes, como futebol, basquete e vôlei, é comum que em cada time haja um ou dois atletas que se destacam, seja pelos lances espetaculares que protagonizam, seja pelo número de pontos que assinalam. São denominados craques ou estrelas de suas equipes e costumam ser idolatrados pelas torcidas e objeto de inúmeras reportagens na imprensa especializada.

O mesmo fenômeno também ocorre nas organizações, tanto públicas como privadas, e nos mais variados ramos de atividade humana. As faculdades têm os seus professores-gurus, as especialidades médicas têm os seus papas, os partidos políticos têm os seus líderes e cardeais, os ministérios têm os chamados ministros fortes, e assim por diante.

No futebol, existem vários estilos de craques: tímido ou falastrão, boa praça ou marrento, simples ou exibicionista, tatuado ou engomado etc. Seja como for, são sempre os focos de atenção da imprensa, dos torcedores, dos dirigentes e dos adversários.

No entanto, quem analisa o esporte além da superficialidade das manchetes sabe muito bem que os craques, sozinhos, não ganham campeonatos. Podem ser decisivos em alguns jogos, mas numa competição mais longa necessitam do respaldo de uma equipe equilibrada em que todos cumpram bem a sua função.

Muitas vezes, times recheados de estrelas são derrotados por outros de elenco mais modesto e a explicação é simples: enquanto os últimos jogavam para o seu time vencer, os primeiros disputavam entre si qual deles brilharia mais que os outros.

Novamente, as mesmas situações podem ser observadas em outras áreas. Quantos conjuntos musicais e parcerias artísticas se desfizeram pelas crises de vaidade de seus integrantes? Quantos governos e empreendimentos fracassaram em razão de disputas internas de poder? Quantas vezes a ambição individual levou a pique um projeto coletivo? Tanto a obra de Shakespeare como as de Maquiavel e Sun Tzu trazem exemplos ilustrativos.

Nos melhores times de futebol da história, sempre existiu um personagem discreto, mas determinante para as vitórias. Além do artilheiro carismático, além do goleiro performático, além dos dribles de efeito e das assistências precisas, esse personagem é o chamado “carregador de piano”. Trabalha muito e aparece pouco, mas de sua eficiência depende o equilíbrio e a harmonia do conjunto. Não por acaso, a decadência do futebol-arte no Brasil coincide com a substituição, inspirada por maus treinadores, de carregadores de piano de extrema qualidade, como Carlinhos “Violino” ou Andrade “Tromba”, por brucutus especializados em agredir deslealmente os adversários.

Todo líder, ao formar sua equipe, deveria se preocupar em buscar carregadores de piano que sejam verdadeiros craques, mas discretos. No setor público, um dos principais e estratégicos carregadores de piano é o controle interno. A Controladoria ou Auditoria Geral é peça essencial para o sucesso de uma administração. Não traz novos recursos, como a Fazenda, mas evita o seu desperdício. Não realiza obras, nem atende diretamente os cidadãos com serviços essenciais, mas assegura que as políticas públicas sejam executadas com qualidade. Atua preventivamente para frustrar irregularidades. Orienta e colabora com todos os órgãos e secretarias. Protege o erário e potencializa maior efetividade no alcance das metas governamentais. Raramente faz gols, mas se não atuar bem o time não vence.

Os gestores sábios e prudentes são aqueles que prestigiam e ouvem o controle interno. Os gestores bem-sucedidos são aqueles, infelizmente ainda em minoria, que sabem valorizar os seus craques discretos.


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