Desigualdades da imprensa – Eugênio Bucci

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Há mais de vinte anos, numa pequena coletânea de oito artigos sobre cultura e poder, registrei uma ideia que me acompanhava desde os tempos de movimento estudantil e que me parece, ainda hoje, capaz de dialogar com as inquietações que nos trazem a este seminário. Na introdução daquele volume, propus que os nossos desafios poderiam ser sintetizados numa espécie de dístico: “Igualar os homens naquilo que a sociedade de classes os diferenciou; e diferenciá-los onde a sociedade de massas os igualou.” [1]

Ainda penso que as duas opressões – a primeira, que divide a humanidade em classes, e a segunda, que a indistingue em massa – não foram superadas, e é no custo dessas duas opressões que eu situo, em boa (ou má) medida, o preço da desigualdade. Sendo assim, a remissão a essa (velha) ideia (de juventude) vem servir de abertura para o que devo dizer aqui hoje.

Incumbido de falar sobre desigualdade e imprensa, vejo-me convocado a falar sobre níveis distintos de assimetrias na cultura, o que se estende da indústria do entretenimento de massas aos efeitos da luta de classes nos discursos que por aí perambulam. Não é difícil perceber que a atividade profissional do jornalismo incide diretamente sobre degraus, desníveis e distâncias que cindem a sociedade e mesmo as subjetividades (sujeitos partidos). Por vezes, a imprensa denuncia as fissões e as interdições e contribui para reduzi-las. Outras vezes, aprofunda os abismos. Por sua natureza mesma, o ambiente das redações, uma espécie de hub nervoso da cultura, recicla a influência angustiante da desigualdade e a ela vem dando respostas distintas, nem sempre satisfatórias.

Em parte, os conflitos que desigualam os agentes envolvidos no (ou pelo) fazer jornalístico, decorrem de chaves culturais plugadas na oposição entre classes sociais. De outra parte, têm a ver com os paradigmas da sociedade de massas. As opressões que se registram entre as classes, a imprensa deveria cobrir segundo as bandeiras legítimas da igualdade, entendidas aí como expressão da causa dos direitos humanos, um substrato ético que já não pode mais ser afastado do projeto de civilização que nos define. Quanto aos paradigmas da cultura de massas, a imprensa deveria cobrir também criticamente, mas aqui levando em conta a afirmação das diferenças, pois, nesse caso, só o que é capaz de distinguir pode igualar os homens.

Minha inclinação neste seminário, no entanto, não pende para o modo como o jornalismo tematiza, aborda ou processa a desigualdade social. Refletir sobre como a desigualdade é processada pelo ofício jornalístico já não me interessa tanto. Pensar sobre como a desigualdade é processada dentro do ofício jornalístico me interessa mais. Acredito ser prioritário, para nós, olhar o modo com que as desigualdades se manifestam não naquilo que os produtos jornalístico denotam, em sua superfície, em seus enunciados expressos, mas dentro dos procedimentos correntes na profissão. O meu foco se dirigirá especificamente para as desigualdades que aparecem no trato com a informação, desigualdades que autorizam a uns poucos manejarem sozinhos os enredos que serão depois entregues ao consumo da sociedade. Em lugar de avaliar se os pobres, os degredados, os excluídos e os marginais merecem ou não merecem destaque nas primeiras páginas dos diários, no horário nobre da televisão ou nos frêmitos das redes sociais, pretendo aqui perguntar sobre as desigualdades que separam aqueles que trabalham a informação jornalística daqueles que são retratados por ela e daqueles que a consomem. Por essa trilha, veremos que, aí, afloram assimetrias – desde a gênese do processo de trabalho do jornalista até o modo como os conteúdos serão assimilados lá adiante, pela massa, pelas classes ou pelos indivíduos a granel.

Por certo, haveria milhões de ângulos possíveis para a abordagem que pretendo fazer. Entre tantas escolhas, decidi começar por uma desigualdade excruciante, aquela que se estabelece entre o jornalista e aquele que será personagem de uma história que esse jornalista pretenda escrever.

Valho-me da jornalista americana Jannet Malcom.

Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável. Ele é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante, que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em ser tema de um escrito não ficcional aprende — quando o artigo ou livro aparece — a sua própria dura lição. Os jornalistas justificam a própria traição de várias maneiras, de acordo com o temperamento de cada um. Os mais pomposos falam de liberdade de expressão e do “direito do público a saber”; os menos talentosos falam sobre a Arte; os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida.[2]

Sim, é isso mesmo que você acabou de ler. Temos aqui uma jornalista, das mais brilhantes e talentosas de que se tem notícia, que não fala bem de seus colegas de profissão ou de si mesma. Segundo ela, o autor de um livro de não-ficção é como um vampiro a sugar a seiva mais vital de histórias alheias, um vampiro que delas se apossa para usá-las segundo seus interesses pessoais, sem respeitar os sonhos dos que viveram de verdade as histórias roubadas. Se isso não é uma desigualdade, fica difícil saber o que mais pode ser desigual.

Como já notou o leitor que se ocupa das notas de rodapé, o trecho que reproduzi acima é o primeiro parágrafo de um pequeno grande livro, O jornalista e o assassino. Nessa obra, Jannet Malcolm narra um conflito bem complicado entre Jeff MacDonald, condenado por ter assassinado sua família inteira, e o jornalista Joe McGinniss.

Embora o tema se abra para complexidades quase inextrincáveis, as razões do conflito entre ambos são bem simples e, para efeitos de clareza da minha exposição, devo sintetizá-las aqui. McGinniss entra na história ainda durante o julgamento de MacDonald. Contratado pela defesa do acusado, McGinnis deveria escrever um livro que provasse a inocência do réu. Graças a essa condição, a de convidado dos advogados, McGinniss teve acesso a todas as informações reservadas da defesa e, durante os anos que durou o processo, participou das reuniões fechadas dos defensores de MacDonald. Nessa posição, construiu com o réu um vínculo de confiança e de intimidade. McGinniss se dizia amigo de MacDonald, a quem prometeu reiteradamente que não descansaria enquanto não mostrasse ao mundo a injustiça daquela acusação.

O livro McGinnisd, Fatal Vision, só saiu em 1983, quando seu querido amigo, já condenado, tinha fixado residência na cadeia. Em sua cela, MacDonald buscava forças nas expectativas que tinha na reportagem que McGinniss estava finalizando. Seu grau de ansiedade não poderia ser maior. Maior do que sua ansiedade, porém, foi a sua decepção. O livro, que virou um best-seller instantâneo, destroçou as esperanças de MacDonald. Traindo as juras de amizade que fizera antes, McGinniss o retratou como um sujeito de personalidade patológica, um tipo insuportável, e não deixou a menor dúvida de que ele era mesmo culpado pelo assassinato da família.

MacDonald, então, deciciu entrar com uma ação na Justiça contra o seu ex-melhor amigo, exigindo dele uma indenização considerável – e foi só aí, no curso do processo que MacDonald moveu contra McGinniss, que Jannet Malcolm entrou na história. Ela cobriu a disputa judicial, que só foi terminar em 1987, com McGinnis obrigado a pagar 325 mil dólares ao personagem central de Fatal Vision. Vem dessa cobertura o relato perturbador de O jornalista e o Assassino.

Bem sabemos que a desigualdade no manuseio da informação – que favoreceu McGinnis e prejudicou MacDonald – não se paga com 325 mil dólares. Muito menos se resolve com 325 mil dólares. Há, nessa assimetria, uma perversidade mais funda, que põe em xeque, de fato, a validade e a legitimidade do próprio método. Essa desigualdade se justifica? É sustentável do ponto de vista moral? Jannet Malcolm faz uma observação tão precisa quanto doída.

“O indivíduo [aquele que é retratado por um autor para ser, depois, personagem de um livro de não-ficção] torna-se uma espécie de filho do escritor, considerando-o como uma mãe permissiva, que tudo aceita e tudo perdoa, e esperando que o livro seja escrito por ela. Evidentemente, o livro é escrito pelo pai severo, que percebe tudo e não perdoa nada.”[3]

É estranho constatar que, por ter uma autorização social tácita para agir assim, com uma torpeza travestida de método objetivo, a figura do jornalista inspira admiração e temor. A dupla ascendência que ele exerce sobre o entrevistado indefeso – a da mãe que tudo compreende e a do pai que nada perdoa – lhe confere uma aura de poder extremo. Alguns jornalistas (uns mais do que outros), são exemplares resplandecentes desse tipo de poder escuro. Deles, muitos querem ser confidentes, contando bastidores disso e daquilo. Deles, ninguém quer se tornar desafeto.

Jannet comenta isso.

Na nossa sociedade o jornalista está no mesmo nível que o filantropo, como alguém que possui algo de extremo valor para dar (a moeda dele é a substância estranhamento intoxicante chamada publicidade), e que, por conseguinte, é tratado como uma deferência bastante fora de proporção com os seus méritos como pessoa.[4]

Resta dizer que esse “filantropo” tem necessariamente duas caras, antagônicas (como o pai é o antípoda da mãe). Sem mais nem menos, o “filantropo” vira a face e vira um misantropo. A ambivalência que seu carisma instaura nas rodas que frequenta faz com que sua figura de benfeitor seja temida como a figura de um malfeitor, um torturador de sentimentos, um vilipendiador, um sádico. Nesse ponto, o livro de Jannet Malcolm tem o sabor de uma espécie de vingança contra essa figura temida e “moralmente insustentável”. Contra essa figura, a autora não economiza insultos. Numa passagem especialmente ácida, ela transcreve uma declaração de Bernard Segal, o advogado de defesa de Jeff MacDonald responsável pelo convite a McGinniss para escrever uma reportagem favorável a seu cliente:

 Tendo sido jornalista por algum tempo antes de ficar honesto e tornar-me advogado, eu pensei, não há muitos livros escritos desde o ponto de vista interno de um caso, e este é um caso singular, com um cliente singular.[5]

No livro, a expressão “jornalista honesto” soaria como oximoro. A fala do advogado Bernard Segal ajuda a autora a estabelecer o lugar ocupado pelo jornalista na linha evolutiva da honestidade: o subterrâneo do submundo. Quando nos lembramos das muitas piadas que os americanos gostam de contar a respeito da escassa honestidade dos advogados, a frase de Segal ganha toques de escárnio. “Puxa vida”, a gente se espanta, “então, nos Estados Unidos, os jornalistas superam até os advogados em matéria de vigarice e de falta de caráter?”

A sensação não é boa. Fica parecendo que que tudo o que o livro de Jannet Malcolm quer nos mostrar é que o jornalista não passa de um manipulador desleal. De minha parte, menos como praticante do jornalismo e mais como um pesquisador da imprensa, acredito que há mais sentidos na obra. O jornalista e o assassino não se reduz a uma vingança, a um desaforo que sua autora não quer mais ter de levar para casa. Creio que, se se resumisse a isso, o intento do livro de Jannet Malcom teria sido impossível – ou inútil. Isso porque, ao retratar criticamente uma relação assimétrica entre o entrevistador e o entrevistado (ou, de modo mais amplo, entre o autor de uma grande reportagem e aquele que será o personagem principal desta reportagem), ela consegue fazer um jornalismo que escapa ao vício que ela mesma contesta. Ao denunciar esse vício com tanta clareza e tanta energia, ela renova a imprensa, revigora o discurso jornalístico, mostra que ele pode ultrapassar o desfiladeiro da assimetria e, mais ainda, é capaz de reporta-lo com precisão e espírito crítico. O discurso jornalístico, portanto, ao menos aos meus olhos, sai desse breve livro bem maior do que entrou, sai mesmo consagrado como uma forma de conhecimento da aventura humana capaz de retratar sua própria miséria.

O parágrafo inicial de O jornalista e o assassino – que reproduzi há pouco – segue intacto, continua de pé: o que o jornalista faz é “moralmente insustentável”, mas, se for grande o suficiente para mostrar sua própria insustentabilidade moral, o que o jornalista faz é maior do que sua miséria. Ou seja, o que o jornalista faz é “moralmente insustentável” a não ser que o jornalista ponha em questão a assimetria primordial e saiba, por meio desse questionamento, elevar seu exercício profissional a um registro menos cínico e mais esclarecedor.

É também verdade que, em mais de uma passagem, a própria autora se surpreende em conversas em que suas fontes se revelam, se expõem, entregando confissões que provavelmente não gostariam de tornar públicas. São muitas essas passagens, e é sempre interessante observar como a autora se safa – ou não se safa – de cada uma delas.

De um jeito ou de outro, pela minha leitura, o livro dela não se reduz a uma severa maldição do jornalista profissional. Acima disso, põe em evidência uma desigualdade complexa entre ele e a fonte que lhe entrega suas memórias, suas fraquezas, suas esperanças, suas veleidades. Essa desigualdade, claro, não está resolvida nem superada, mas, para os efeitos da minha participação neste seminário, talvez seja um razoável ponto de partida.

Egos atropelados

O espírito (de corpo) mais acomodado entre os jornalistas nos levaria a formular sistemas de consolação para um peso de consciência. Se fazer jornalismo é ferir interesses e suscetibilidades – a gente poderia dizer – que ao menos a lâmina seja universal e democrática. Se fazer jornalismo é lancetar o ego alheio, que ao menos não seja ferir direitos. Se há uma desigualdade de método no modo como os profissionais da imprensa lidam com a informação que recolhem com exclusividade, que ao menos se garanta a todos o direito de serem iguais perante essa desigualdade.

Mas essa via de consolação mental, óbvio, não basta. Aliás, não resolve nada, apenas se resigna diante de um mal. Pensar nas desigualdades da imprensa deveria cobrar de nós a elaboração de perguntas que ao menos considerassem a hipótese de redução dessas desigualdades. Comecemos pela ideia de “assimetria da informação”.

Quando falam nisso, as pessoas se referem, no mais das vezes, a desequilíbrios na posse da informação que acarretarão consequências igualmente desequilibradas, não isonômicas e injustas, seja em relações econômicas, seja em relações contratuais. A figura conceitual de assimetria da informação – ou a informação assimétrica – encerra uma ideia de burla, de tapeação, de uma superioridade indevida pela qual uma parte lesa as pretensões justas da outra parte. Como resultado, aquele que tem a informação antes, ou aquele que tem mais informação, ou, ainda, uma informação melhor, mais qualificada, levará vantagem sobre o outro. Em suma, a assimetria da informação decorre de uma desigualdade (de poder aquisitivo, de formação escolar, de posição hierárquica por exemplo) e, ao mesmo tempo, gera novas desigualdades ao passo que reproduz a desigualdade da qual se origina.

Indo um pouco mais adiante, podemos dizer que, quando pensamos em desigualdades sociais ou econômicas, não podemos perder de vista que elas se refletem também na posse ou no controle da informação, para fins econômicos ou políticos, pessoais ou corporativos. Sociedades desiguais são especialmente desiguais ano acesso e no emprego da informação, dentro de estratégias diversas, de tal sorte que assimetrias informativas podem ser examinadas como sintomas ou indicadores de desigualdades estruturais, e, do mesmo modo, assimetrias informativas atuam na reprodução das desigualdades estruturais de sociedades injustas.

Pelo microscópio de O jornalista e o assassino, podemos ver ainda mais. A obra nos revela descortina engrenagens menos aparentes das assimetrias informativas – ou desinformativas – já conhecidas, franqueando ao leitor o contato mais bruto com a tessitura de uma forma de apropriação primitiva de dados, que por sua vez vai se desdobrar no manejo e no manuseio de relatos, cobrindo um arco que se estende desde a origem de narrativas pessoais até o modo elas serão posto à disposição do público. Por certo, esse tipo de assimetria – a assimetria de método – reflete, mesmo que não diretamente, um imenso volume de desigualdades nas relações entre as pessoas e na forma como as pessoas podem ser senhoras, ou não, de suas próprias trajetórias indentitárias e de suas próprias biografias. Essa desigualdade não se limita às contradições postas no mundo pela sociedade de classes e nem ao mercado ou à cultura de massas, dentro da qual a imprensa é apenas um departamento de pouca monta (e não se limita a isso porque em países em que os governos alegam ter abolido a dominação de uma classe sobre outra, como Coréia do Norte, Cuba ou China, podemos verificar a olho nu a incidência do monopólio do poder político sobre a conformação dos discursos. Essa desigualdade, tão globalizada e tão inamovível, tem sido pouco pensada, pouco debatida e bem pouco compreendida.

Evidentemente, não são apenas os autores dos tais “romances de não-ficção”, para usarmos aqui o termo caro a Truman Capote, que se beneficiam de poder (ou sobrepoder, ou poder-a-mais) sobre a consolidação das versões que prevalecerão quando uma história cair nas malhas do consumo de massa. Instituições jornalísticas, mesmo as mais respeitáveis, como The New York Times, The New Yorker, bem como órgãos de comunicação não comerciais como BBC ou Deutsche Welle, valem-se da mesma “prerrogativa selvagem”, a toda hora.

Recentemente, um dos mais consagrados jornalistas da atualidade, Gay Talese, foi questionado sobre o efeito que suas reportagens poderiam ter sobre reputações alheias. Refiro-me à entrevista que ele deu a Katie Roiphe publicada na edição 189 do verão de 2009, na revista literária Paris Review. Em sua resposta, Talese alegou que, com seu trabalho, só quer ser justo, mesmo que possa desagradar a uns ou outros, e lembrou que os melhores jornais do mundo não estão a salvo de veicular julgamentos injustos sobre quem quer que seja. Todos erram, ou, sejamos mais próprios, todos abusam.

Acredito que, todos os dias, o New York Times fere pessoas e destrói carreiras – dramaturgos, homens de negócios, pessoas que são acusadas de crimes que não cometeram. Eles são assassinos. As resenhas, críticas, as reportagens nacionais e internacionais às vezes são corretas, às vezes são corretas pela metade, e às vezes são calúnias.[6]

De passagem, registre-se que quem diz isso é ninguém menos que o autor de O Reino e o poder, uma obra considerada clássica sobre a história, as vicissitudes, as excentricidades e os caprichos idiossincráticos do diário The New York Times. E o diz com razão. Numa sociedade minimamente livre e democrática, o jornalista e, em instância irrecorrível, o órgão de imprensa para o qual ele trabalha, decidem sozinhos o que será e o que não será oferecido à audiência. Bem sabemos que, sem essa condição, a liberdade de imprensa não existiria na prática. Bem sabemos, também, que a liberdade de imprensa é inegociável e nada se pode aceitar que vá “relativizá-la” ou “flexibilizá-la”. Mais do que isso: sabemos muito bem que a liberdade de imprensa só existe quando se expande. Por isso, a questão não é nada elementar.

Sabemos enfim que na liberdade de imprensa não se mexe. Ao mesmo tempo, porém, sabemos igualmente que, nas palavras de Gay Talese, “as resenhas, críticas, as reportagens nacionais e internacionais às vezes são corretas, às vezes são corretas pela metade, e às vezes são calúnias”. E aí? O que fazer? Sem prejuízo das garantias que, a meu juízo, são bases inamovíveis do Estado de Direito, não podemos deixar de reconhecer que o poder contido nessa prerrogativa intransferível de editar os relatos é um poder muito grande, talvez iníquo. Contra ele, dia sim, dia não, levanta-se a inconformidade de parlamentares (eu me refiro aos bem intencionados), empresários, governantes, líderes religiosos, ONGs as mais variadas e, não raro, de um bom número de juízes (e continuo me referindo aos bem intencionados). Dispositivos legais – alguns deles com justificativas honestas – procuram conter ou relativizar esse poder. Todos eles porém erram e terminam ferindo a liberdade, de tal maneira que o problema permanece: o que se pode fazer a respeito sem sacrificar a liberdade?

Reclamar da imprensa sempre foi um mantra prazeroso – gozozo, eu diria – e mesmo catártico no interior de grupos de interesse. No Brasil, surgem sinais desse mantra com mais frequência nos ambientes que costumam se imaginar “de esquerda”, para os quais a mídia, você já sabe, é uma espécie de caminhão de som no meio da rua a serviço das tais “classes dominantes” (quais e quantas são eles não sabem dizer). Nos Estados Unidos, inversamente, sinais dos mesmo mantra têm sido mais assíduos nas hordas da direita – especialmente agora quando os mais influentes ícones da imprensa resolveram apoiar publicamente a candidatura de Hilary Clinton, Democrata, contra Donald Trump, o Republicano que acabou vencendo o pleito. Lá foi a direitona “braba”, profunda – uma direita elevada ao paroxismo, a tal ponto que parece transbordar para fora dos limites do que se entende por política –, que vituperou contra as “manipulações” da imprensa “tendenciosa”, “amiga dos políticos”. O mantra antiimprensa, nos Estados Unidos de hoje, é um mantra de direita, tão inculto lá quando aqui é inculto o da esquerda.

Em sua defesa, os representantes da imprensa argumentam que oferecem a verdade para a sociedade e que a liberdade cobra o seu preço em “erros” da imprensa. Logo, não haveria muito o que fazer a respeito. Oocorre que, mesmo admitindo que nos oferecessem a verdade, o argumento não é fácil de engolir. De onde, afinal de contas, o jornalista retira seu salvo-conduto para mentir para a sua fonte-personagem (como fez McGinniss e como fazem tantos outros todos os dias) com o objetivo de obter dela uma informação que poderia ser considerada de “interesse público”? Segundo quais cânones pode se reputar admissível a mentira que um jornalista enuncia para aquele a quem vai retratar, só porque dessa mentira se poderia forjar a chave para abrir o caminho para a verdade que esse mesmo jornalista poderá depois oferecer ao público? Se o jornalista edita unilateralmente aquela suposta “verdade de interesse público”, será que seu discurso pode ser de fato considerado verdadeiro, fidedigno, equilibrado, objetivo, equânime? Que verdade é essa que só pode ser obtida por uma mentira?

Em matéria de combater desigualdades, uma das premissas que a imprensa terá de rever no próximo período se refere ao direito das fontes, sejam aquelas que serão retratadas em romances de não-ficção, sejam aquelas que apenas fornecem dados para reportagens em que sequer serão mencionadas. O tema do direito das fontes quase não aparece nos debates sobre ética jornalística, mas é tempo de enfrentá-lo. Pode o jornalista decidir sozinho sobre o enfoque de um relato que se baseia fundamentalmente em outro relato, alheio, do qual o jornalista não é proprietário? Que deontologia consagra tamanha desigualdade no tratamento da informação?

Se isso é mesmo um problema real, e se esse problema real admite – ou reclama – um tratamento, como se poderia ministrá-lo sem arranhar a liberdade? Como resolver isso sem que se convoque um juiz de direito que, de uma hora para outra, veste uma toga que não é a sua, a toga de editor do debate público? É possível mexer nessa questão sem fazer sangrar a imprensa?

Por certo, a fonte não deve mesmo supervisionar a edição dos relatos de interesse público. Se isso fosse admitido, o jornalismo independente cederia lugar à propaganda a serviço das fontes. Por outro lado, as fontes também têm seus direitos, para isso estou tentando chamar a atenção. Se observados, não por aplicadores de leis, não por juízes, mas por uma ética amadurecida abraçada pela própria imprensa, a desigualdade no manejo da informação a ser publicada poderia ser atenuada. O nosso problema, de todo modo, é que não temos prestado a devida atenção a aos direitos das fontes.

Os fatos, da imprensa à política

A democracia não tem como abrir mão da garantia de que redações independentes deem a palavra final sobre a edição dos conteúdos informativos. Sem isso, os noticiários seriam capturados por interesses estranhos ao direito que o público tem de receber informações objetivas e apartidárias. O fato de muitas redações fracassarem nessa missão não deveria abrir caminho para que autoridades se investissem do papel de “editar” as redações independentes. Relativizar a palavra final do jornalista em face do “direito da fonte” é um receituário perigoso, que pode fragilizar a independência jornalística. Mesmo assim, o debate é – e será ainda mais – pertinente. Não está resolvido por antecipação, e não será nada simples encontrar maneiras de solucioná-lo no futuro. A boa notícia é que o tema sensibiliza cada vez mais segmentos implicados a edição e no consumo de notícias e ideias. A má notícia são os riscos implicados.

Sei que não vou frustrar o leitor se disser que não vou resolver aqui esses impasses. Jannet Malcom também não os resolve e Gay Talese sequer se ocupa deles. Apenas me valho desse traiçoeiro novelo de interrogações explicitar as dificuldades do assunto e para dizer que, sim, em boa medida, é plausível e sustentável a afirmação de que alguma verdade é entregue e vem sendo entregue, pelos órgãos de imprensa, para o público. Não fosse a sensação disseminada e real de que existe o benefício social e democrático gerado pela imprensa – benefício que se constitui em informação de qualidade – a liberdade dentro da qual o jornalista se move, inclusive para perpetrar violências simbólicas, não seria real como é.

Nesse ponto, portanto, é preciso delimitar um pouco de que verdade se fala. Se é que os jornalistas (e aí eu me refiro aos bem-intencionados, bem preparados, bem experimentados e competentes) oferecem mesmo alguma verdade para o público, que tipo de verdade é essa?

Existe uma resposta para essa pergunta, e é uma resposta simples e direta. Mas, antes de passarmos a essa resposta, é providencial falarmos um pouco mais sobre essa sensação difusa, cada vez mais disseminada, que o jornalista, em associação com o órgão de imprensa para o qual trabalha, ou a editora que o publica, exerce um monopólio sobre a forma final do relato informativo. O sentimento geral em relação a esse domínio, percebido como um “monopólio”, é bastante arisco. As pessoas tendem a rejeitar essa condição do jornalista. O senso comum desconfia dele, olha para ele com uma ponta de resistência, como se estivesse à beira de chegar a uma conclusão meio paradoxal: a informação jornalística é boa e necessária, só o que atrapalha é o jornalista.

A euforia das massas em torno das redes sociais, que seriam democratizantes exatamente porque põem notícias e ideias em circulação sem depender de jornalistas profissionais, dá bem a dimensão desse novo e paradoxal senso comum. Não são poucos os que acreditam que as redes sociais, ao retirarem das redações profissionais o controle sobre a edição final dos conteúdos jornalísticos emancipariam finalmente o debate público. Com o jornalismo dito convencional enfraquecido, ou quase morto, estaria aberta a temporada de um jornalismo liberto da indústria e dos grilhões do mercado. A informação que fluiria das (e nas) redes sociais estaria, então, mais livre das assimetrias e das desigualdades presentes na edição do que tem sido chamado de “jornalismo clássico”.

Menos dependente das redações profissionais, o fluxo de notícias e ideias na esfera pública seria mais propenso a combater as assimetrias informativas de diversos matizes e, na resultante, seria mais comprometido com a prevalência da verdade. É um tanto chocante aos meus olhos, mas os apóstolos das redes sociais não se dão conta da terrível assimetria contida no monopólio da indústria das redes sociais, com gigantes como FaceBook e assemelhados (uns se fundindo com os outros) controlando globalmente todo o fluxo de conteúdos, em todos os países, e de uma vez só. Falam contra as desigualdades que privilegiam os jornalistas profissionais, falam contra “monopólios da mídia”, fala contra a imprensa que conspira, mas não se dão conta da concentração de propriedade e do controle tecnológico das redes sociais. Olham para as redes monopolizadas como se elas fossem a realização da utopia democrática sobre a Terra. As redes sociais seriam, pois, a mais acurada usina de processamento da verdade que a imprensa poderia entregar ao público. As redes sociais seriam o melhor substituto do jornalismo profissional, o novo corpo da instituição da imprensa alargada e, finalmente, “democratizada”.

Mais adiante, tratarei com algum vagar das redes sociais. Por agora, voltemos à pergunta que deixamos em aberto há pouco: de que verdade se fala quando se fala da informação jornalística, essa que era boa mas insuficiente nos tempos da “imprensa convencional” e que ficou muito melhor agora nos tempos das redes sociais que tornaram a figura do jornalista obsoleta? Vejamos então qual seria a verdade a ser entregue pelo jornalismo.

É fato que o jornalismo jamais teve pejo de prometer a verdade. Trata-se de um lugar comum dos códigos de ética do jornalismo, em todo lugar: não há jornalismo sem respeito à verdade. Os jornalistas americanos Bill Kovach e Tom Rosenstiel, no livro Elements of Journalism, depois de ouvir milhares de profissionais de imprensa e de pesquisar a cultura das redações americanas, listaram os dez princípios essenciais dessa profissão. Observo lateralmente que eles não incluem aí o respeito ao direito das fontes, mas são certeiros em reafirmar, em primeiro lugar, antes de todos os demais, a repetição desse lugar comum do qual não podemos abrir mão:

O primeiro compromisso do jornalismo é com a verdade.[7]

O que nos cabe, agora, é tentar demarcar de que tipo de verdade estamos falando. O jornalismo pode oferecer a verdade? Sim, mas vamos com calma. Se alguém levantasse o tema para um dos maiores jornalistas americanos do século XX, Walter Lippmann, ele simplesmente separaria uma coisa da outra, categoricamente.

A hipótese, que me parece a mais fértil, é que notícia e verdade não apenas não são a mesma coisa como precisam estar claramente separadas. A função da notícia é sinalizar um evento. A função da verdade é trazer luz para fatos ocultos, relacioná-los a outros, e traçar um retrato da realidade a partir do qual os homens possam atuar.[8]

Lippman escreveu essa frase num livro publicado em 1922, quando ele mesmo tinha 33 anos de idade. Para ele, a pretensão da verdade, assim posta, sem qualificativos, mais atrapalhava do que ajudava a imprensa, o que é bastante razoável da parte dele. Essa palavra, verdade, pode significar muitas coisas estranhas à matéria prima do jornalismo. Pode designar uma epifania, uma certeza transcendente, a essência dos entes, o mistério do ser, o que, de uma vez por todas, não pode ser algo apreensível por um reles repórter. Por isso, muito cuidado. Na diferenciação de método que Platão fazia entre doxa e episteme – sendo a doxa o campo da opinião, das sensações personalíssimas, abastecidas pelos nossos sentidos, que captam a chamada realidade sensível, e a episteme o conhecimento que só pode ser alcançado pela razão, para além da realidade sensível – a imprensa não tem como se arvorar a dar conta nem de uma nem de outra. Parte da realidade sensível, o repórter até que consegue apalpar com as próprias mãos. Parte do saber contido na episteme, ele cuida de perguntar a quem o tem. No mais, como todos os seres normais da espécie humana, o repórter apenas tateia na escuridão e, de vez em quando, ouve um galo cantar. O máximo que ele pode ambicionar é contar com honestidade e alguma exatidão aquilo que verificou com seus sentidos e aquilo que ouviu de fontes credenciadas. No mais…

Quem diz que uma verdade platônica poderia ser objeto da investigação jornalística incorre num devaneio subplatônico. Lippmann, mais ajuizado, retira do campo da imprensa a verdade filosófica, a verdade metafísica, a verdade religiosa, a verdade bíblica, a verdade da ciência, embora não as arrole expressamente, e chega a fazer troça da credulidade dos leitores.

Por um dolar, você mal consegue um punhado de doces, mas, por um dólar ou menos, as pessoas esperam que a verdade lhe caia no colo.[9]

Não obstante tudo isso, uma verdade, uma pequena verdade, esta sim, o jornalismo pode prometer, oferecer e entregar. Para encurtar o caminho, já adianto que estamos falando da verdade dos fatos ou da verdade factual. Dentro das controvérsias filosóficas acerca da verdade, que se estendem por milênios, a verdade dos fatos perfaz uma verdade menor, mas, mesmo assim, mesmo menor, pode fazer uma diferença gigantesca na vida das pessoas. A pequena verdade que o jornalismo pode oferecer se processa por meio da verificação transitória e temporária dos acontecimentos, dentro de um fórum de boa-fé aberto ao debate das ideias pertinentes ao interesse público. A grande verdade, especialmente a verdade mística, aquela com “V” maiúsculo, está fora disso. Não é jornalismo. Ademais, essa verdade com “V” maiúsculo não reduz as assimetrias informativas, não nivela por cima a base informativa de uma sociedade democrática, mas, ao contrário, tem sido instrumentalizada para a exacerbação da intolerância. Por todos os motivos, não participa e não deve participar dos ideais da imprensa.

Fiquemos assim com a verdade menor, a verdade mais simples, a verdade dos fatos. Já é muito. O mais interessante é que o lastro de verdade ao qual a imprensa pode almejar coincide perfeitamente com o lastro de verdade do qual depende o exercício da política, nos termos exatos de Hannah Arendt.

“Visto que fatos e eventos”, diz ela, “o resultado invariável de homens que vivem e agem em conjunto, constituem a verdadeira textura do domínio político, é evidentemente com a verdade factual que nos ocupamos aqui.[10]

Pensando bem, não poderia ser diferente. Quando olhamos as coisas por esse ângulo, qual seja, por essa coincidência do valor da verdade factual tanto para a imprensa como para a política, entendemos que a função da imprensa não há de ser outra que não a de fazer a verificação diária da observância da verdade factual no discurso político. A imprensa funciona, nesses termos, como a instância de checagem permanente do discurso político, o que significa que o jornalismo existe para cobrir, antes de todo o resto, nada menos e nada mais que a política, em suas muitas formas e muitos níveis de expressão. A imprensa diz respeito ao poder – e é ao poder que a política se dirige. A imprensa fiscaliza o poder – e é o poder que os políticos pretendem exercer. Enfim, ficamos aqui habilitados a concluir que, sem os cânones (éticos) da imprensa, a política perderia seu sistema de verificação e auditagem independente, quer dizer, sem a imprensa livre a política democrática teria problemas graves para se manter como tal. Daí que, quanto mais cumpre o seu papel, mais a imprensa politiza a agenda cotidiana, quer dizer, não deveria surpreender a ninguém que a imprensa tenda a politizar os assuntos de que se ocupa, sejam eles da ordem da gastronomia, da piscicultura, do futebol ou da energia nuclear.

Em “Verdade e Política”, Hannah Arendt avisa que a verdade que interessa à política não é a verdade platônica (que ela cita expressamente), mas a verdade dos fatos, quer dizer, aquela que se refere ao que “aparece porque é” – e assim pode ser verificado, acrescento eu, por qualquer cidadão no domínio das faculdades e habilidades de uma pessoa normal. Diz Hannah Arendt:

Nenhuma permanência, nenhuma perseverança da existência podem ser concebidas sem homens decididos a testemunhar aquilo que é e lhes aparece porque é.[11]

A filósofa também aponta que as democracias convivem muito melhor com a verdade dos fatos do que os regimes de exceção. Nas democracias, a verdade dos fatos circula mais livremente quanto mais a sociedade se pauta pelos parâmetros da democracia. Entre outros exemplos, ela cita o caso de Leon Trotsky, cujo nome e cuja fotografia foram varridos dos sistemas informativos do totalitarismo soviético.

E se agora pensamos nas verdades tão modestas tais como o papel, durante a revolução russa, de um homem cujo nome era Trotsky, que não aparece em nenhum dos livros da história russa soviéticos – imediatamente tomamos consciência do quanto são mais vulneráveis que todas as espécies de verdades racionais juntas.[12]

Por aí, constatamos que há um entrelaçamento triangular entre (1) a imprensa, (2) a verdade de fato e (3) a política (que, para ser exercida plenamente, em seus moldes contemporâneos, supõe a democracia). Se a democracia reflui, o triângulo se enfraquece e seus três vértices perdem vigor. Quanto à verdade dos fatos, Hannah Arendt insiste em observar que as democracias, em comparação com regimes autoritários ou totalitários, convivem melhor com ela. Na Alemanha nazista, era mais perigoso falar de um campo de concentração (um fato) do que “emitir pontos de vista ‘heréticos’ sobre o antissemitismo, o racismo e o comunismo”. Ou seja: as ditaduras podem até suportar discursos sobre teses abstratas, mas abatem a tiros as notícias factuais que as contrariem.

A assimetria informativa promovida à força pelo autoritarismo e pelo totalitarismo sacrifica a possibilidade de verificação desse evento tão banal, tão simples e tão subversivo quanto… o fato. A supressão das liberdades civis e políticas produz um degrau informativo mais grave entre sociedade e Estado, uma desigualdade sem a qual a força da autoridade não se impõe.

Falando assim, no entanto, talvez fique no ar a presunção de que, na democracia, a política se pauta pela verdade e nada mais que a verdade. Não é isso o que pretendo sugerir aqui. Não é isso o que acontece. A política, por sinal, não apenas não repele como aprecia bastante uma mentira bem contada. Uma providencial recapitulação do tema já foi feita por Celso Lafer em “A mentira: um capítulo das relações entre a ética e a política”, em que assinala:

A mentira, portanto, especialmente a mentira entre os homens que atuam e agem politicamente, não é, para retomar a reflexão arendtiana, acidental. A falsidade deliberada lida com fatos contingentes; com assuntos que não carregam no seu bojo uma verdade inerente, e não têm um corpo definido com a clareza da evidência. Por isso são vulneráveis. Fatos necessitam testemunho e testemunhas confiáveis para serem estabelecidos, pois sempre comportam dúvidas. Por isso, a mentira é uma tentação, que não conflita com a razão, porque as coisas poderiam ser como o mentiroso as conta.[13]

Celso Lafer não refuta a mentira na política a partir de um parti pris moral. Ele toma em conta que a burla da verdade factual integra procedimentos racionais do fazer político, num hábito mais ou menos, digamos, natural. Platão, um pensador que em nada gostava de inverdades, admite, no Livro III de A República, lá se vão 2 400 anos, a hipótese da mentira política aceitável, a mentira que teria por objetivo poupar a cidade de sofrimentos desnecessários. Apesar de condenar toda falsidade, Platão abre uma exceção para o governante que, por vezes, sonega aos governados uma informação ou outra, desde que para fins nobres: “Se compete a alguém mentir, é aos líderes da cidade, no interesse da própria cidade”. A mentira do líder, desde que “no interesse da própria cidade”, conteria um caráter análogo ao da mentira piedosa dos médicos, que, em certas circunstâncias clínicas, funcionaria até mesmo como remédio, seria uma mentira terapêutica.

Note-se que, mesmo no caso dessa mentira que a filosofia grega considerou eticamente admissível, por meio da qual o governante preserva de dores inúteis os governados, o que se tem é uma desigualdade informativa. O soberano retém para si, sozinho, uma informação que sua cidade desconhecerá. O que existe aí é claramente uma assimetria informativa. Há somente um detalhe que a torna menos repulsiva: essa desigualdade informativa seria supostamente benéfica para a sociedade. Supostamente.

Desigualdades informacionais em rede

Desníveis e assimetrias diferentes, e bem mais graves, começam a se apresentar agora, na era das redes sociais (e volto a falar sobre elas, conforme anunciei há poucas páginas), num influxo que contraria as profecias emancipatórias que embalaram o surgimento supostamente democratizante das tecnologias digitais.

Eu já anotei que, ao som de trombetas virtuais, as redes vêm sendo anunciadas como um fator inédito e revolucionário de oxigenação da esfera pública. Afloram como a nova Ágora, embora também como um novo Oráculo (mágico), e durante um bom tempo, sem maiores questionamentos, reluziram como o mais confiável altar da verdade dos fatos. De repente, vamos nos dando conta que as notícias mais alvissareiras eram inverídicas. Nas redes, o que mais pipocam são as manchetes mentirosas. Mentiras pequenas ao lado de mentiras planetárias. Não estamos mais falando de mentiras piedosas, daquelas que preservariam a autoestima da polis – mas de mentiras até mesmo criminosas que ferem de morte a própria ideia de pólis.

Com o advento das redes sociais, não são poucos os que enxergam que o laço entre verdade e imprensa começa a fazer água. Não por acaso, a mesma dissolução se manifesta no campo político: a verdade dos fatos deixa de ser um dos lastros de referência da ação política, como já se pode ver em toda parte. A eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos em 2016 encerra um episódio exemplar, ao lado do Brexit e alguns outros, todos de grande repercussão. Nesses eventos, inverdades factuais e mesmo falsificações grosseiras ocuparam o lugar de notícias fidedignas e se reproduziram maciça e massivamente pelas redes. As inovações tecológicas que iriam libertar o relato dos fatos e o fluxo das idéias do controle editorial “monopolizante” exercido pelos jornalistas profissionais se mostraram canais de estratagemas desenhados para sabotar os princípios da vida em sociedade e, consequentemente, os ideais da imprensa, da democracia e da política. Estamos todos assistindo a um refluxo mundial da cultura política em que a verdade dos fatos, ela mesma, modesta, menor e comezinha, vai ficando para escanteio.

Em setembro, a revista inglesa The Economist surgiu com uma capa sobre a “pós-verdade”.[14] Entre seus argumentos, a revista citou o caso de Donald Trump, que transformou seu descompromisso com os fatos em mola propulsora de seu sucesso na corrida eleitoral. Entre outras falsidades, sua campanha espalhou a “notícia” de que Barack Obama não era americano. O desprestígio da verdade na política amplia os portões por onde passam os oportunistas, os populistas, os mistificadores e os inimigos da liberdade. De modo mais específico, abre caminho para a desigualdade informativa e para o bloqueio seletivo de acesso dos cidadãos à educação, à cultura e à informação.

Ora, quando lembramos que a verdade factual, no dizer de Hannah Arendt, é “a verdadeira textura do domínio político” – além de ser, devo aduzir, a matéria-prima da imprensa livre –, logo percebemos que o que está em jogo, agora, não é apenas o domínio político, mas o caldo comum que esse domínio guardava com a imprensa e com a própria democracia. Vai ficando mais e mais claro que as redes sociais, além de não elaborar a informação crítica – aquela mesma que caberia à instituição da imprensa apurar, investigar, checar, editar e publicar –, vêm agindo, por ações intencionais ou inadvertidas, no sentido de corroer o sentido que a verdade factual continha tanto no âmbito da política como no âmbito da imprensa. Apartadas dos cânones da imprensa, as redes sociais não a prolongam, mas constituem uma força cega cujo fim parece ser o de sufocá-la. Nessa perspectiva, e apenas nessa perspectiva, as redes não fazem jornalismo, assim como não fazem algo “parecido com o jornalismo”; elas simplesmente destroem e desautorizam os nexos críticos entre o jornalismo e o público.

A política e a imprensa só prosperam em sociedades democráticas, ou tendentes à democracia, onde a verdade dos fatos é um valor. Se a verdade factual cai em desuso ou perde a centralidade, a imprensa perde relevância, a política simplesmente caduca e a iniquidade ganha fôlegos incompatíveis com os ideais da civilização. Não nos iludamos mais, quando esmorece a verdade dos fatos, ampliam-se as desigualdades, assim como se ampliam os aspectos mais alienantes da cultura de massa. À sombra do declínio da política, surge uma forma deturpada de religião, um tipo de aglomeração de vontades em que as crenças contam mais do que a razão, como torcidas de futebol expandidas.

As tais “bolhas” geradas pelos algoritmos das redes sociais jogam um peso enorme nesse descarrilamento.[15] Finalmente, essas bolhas vêm sendo apontadas como ambientes de não-diálogo que apenas celebram “pensamentos únicos”, mistificações e dogmas autoritários, à esquerda e à direita.

Como hoje as redes sociais suprem funções que antes cabiam à imprensa tradicional – e, nas redes, em vários episódios distintos, mentiras prosperam mais do que verdades, e influenciam de modo decisivo as torcidas expandidas –, vai ficando evidente que os cidadãos geram e difundem conteúdos de aparência jornalística, mas não operam os sistemas de comunicação segundo os parâmetros normalmente adotados pelas redações profissionais. Aos poucos vamos percebendo que aquilo que traria mais horizontalidades aos processos comunicacionais, reduzindo a incidência do alegado “monopólio” das redações sobre a edição dos relatos informativos, começa a contribuir para a produção de desigualdades muito mais graves que bloqueiam o acesso dos cidadãos à verdade dos fatos.

Como podem ser processadores confiáveis de informação os cidadãos que desprezam os cânones do jornalismo? Na edição de 2007 de seu Elements of Journalism, já citado aqui, Kovach e Rosenstiel acrescentaram, como o décimo elemento do jornalismo, a responsabilidade que os cidadãos deveriam ter na lida com informações. Eis o décimo elemento:

Os cidadãos, também, têm direitos e responsabilidades quando se trata de notícias.[16]

Devo salientar que Kovach e Rosenstiel não estavam preocupados com redes sociais, que, no ano de 2007, estavam apenas incipientes se comparadas à magnitude que adquiriram em 2016. Só o que eles observavam eram os blogs e à participação dos cidadãos na pauta, na apuração e na edição do noticiário por meio da Internet. E acertaram na mosca, mais ou menos como se antevissem a crise da verdade dos fatos na política.

Mesmo antes da consolidação das redes sociais no grau em que elas se encontram agora, mesmo apenas antevendo, em 2006 e 2007, o que iria se configurar mais tarde, os dois estudiosos notaram que qualquer pessoa poderia atuar como jornalista e, por isso, preconizaram que todas as pessoas com ingresso na Internet deveriam se considerar regida pelos mesmos princípios que dão os parâmetros da ética professional dos jornalistas, ao menos em linhas gerais.

Eles não foram ouvidos, é claro. O que notamos hoje é praticamente o inverso. A responsabilidade difusa da sociedade vem se mostrando menos comprometida com a verdade do que poderíamos e deveríamos esperar. Os desdobramentos são acachapantes. A verificação da verdade factual – o ofício por excelência da imprensa – deixa de ser essencial para os cidadãos, que prescindem de fatos para formar sua opinião. O brilho do extremismo ocupa o lugar da imprensa crítica. Vistas por essa lente, não há muita diferença entre a polarização das eleições presidenciais dos Estados Unidos da América e a polarização das eleições municipais do Rio de Janeiro. Nos dois lugares, temos características de batalha entre seitas, mais do que um debate de argumentos.

Enquanto a política se esvazia e caduca, a imprensa deixa de ser necessária. Se ingressamos mesmo na era da pós-verdade, ingressamos necessariamente na era da pós-política e da pós-imprensa (embora The Economist não tenha dito uma única palavra sobre pós-política e pós-imprensa). O quadro geral prenuncia, como já sublinhei, uma possível exacerbação das desigualdades, que não serão desigualdades apenas informativas.

As revoluções tecnológicas em curso, por evidente, abrem novas possibilidades para o engenho humano, para a convivência e mesmo para a liberdade. Vistas mais de perto, contudo, elas também parecem exacerbar o hedonismo artificial em relação à realidade sensível, o predomínio do imaginário sobre o simbólico e a hipertrofia das emoções em detrimento do pensamento e da razão. Ao menos para o nosso futuro imediato, já é certo que a sociedade de classes ficará ainda mais desigual (com mais concentração de riqueza), assim como a cultura de massas, com sua portentosa indústria do entretenimento, engolirá ainda mais os seus campos contíguos, como o da religião, o da ciência e o da (pós) política. Nessa onda, não fica descartada a hipótese de que venhamos a ter saudade do compromisso com a verdade do velho jornalista que entrevistava como uma mãe e publicava como um pai.


[1] BUCCI, E. “O peixe morre pela boca”. São Paulo: Scritta. 1993.
[2] Jannet Malcom. O jornalista e o assassino. 1990 (original) 2011. Cia das Letras. P. 11. Recomendo, nesta edição, o posfácio de Otavio Frias Filho. A interpretação que ele apresenta no posfácio influenciou decisivamente o raciocínio que desenvolvo no presente artigo.
[3] Jannet Malcom. O jornalista e o assassino. 1990 (original) 2011. Cia das Letras. P. 38.
[4] Jannet Malcom. O jornalista e o assassino. 1990 (original) 2011. Cia das Letras. P. 62.
[5] Jannet Malcom. O jornalista e o assassino. 1990 (original) 2011. Cia das Letras. P. 115.
[6] A entrevista foi republicada  agora, em 2016, como posfácio, na edição brasileira de seu mais novo livro, O Voyeur (São Paulo: Companhia das Letras, 2016).
[7] Kovach, Bill. Rosenstiel, Tom. Elements of Journalism: what news people should know and the public should expect. New York: Three Rivers Press, 2007, p. 5. (A primeira edição é de 2001).
[8]  LIPPMANN, W. Public Opinion, New York: Free Press Paperbacks (Simon and Schuster), 1997, p. 226.
[9] LIPPMANN, W. Public Opinion, New York: Free Press Paperbacks (Simon and Schuster), 1997“For a dollar, you may not even get an armful of candy, but for a dollar or less people expect reality/representations of truth to fall into their laps”
[10] Arendt, Hannah. “Verdade e Política”. In: Arendt, Hannah. Entre o passado e o futuro. Tradução: Mauro W. Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2016. P. 287. Título original: «Truth and Politics». Este texto foi publicado pela primeira vez em The New Yorker, em Fevereiro de 1967 e integrado no livro «Between Past and Future», editado no ano seguinte.
[11] Arendt, Hannah. “Verdade e Política”. In: Arendt, Hannah. Entre o passado e o futuro. Tradução: Mauro W. Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2016. P. 285.
[12] Arendt, Hannah. “Verdade e Política”. In: Arendt, Hannah. Entre o passado e o futuro. Tradução: Mauro W. Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2016. P. 287.
[13] LAFER, Celso. “A mentira: um capítulo das relações entre a ética e a política”. In: NOVAES, Adauto. Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. P. 227.
[14] O termo post-truth é anterior, foi cunhado por Ralph Keyes (The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life. New York: St. Martin’s Press. 2004), mas ganhou projeção global definitiva a partir da capa de The Economist.
[15] Ver, a respeito das “bolhas” geradas pelas redes sociais, os trabalhos precursores de Eli Pariser. Um primeiro resumo pode ser acessado em https://en.wikipedia.org/wiki/Filter_bubble.
[16] Kovach, Bill. Rosenstiel, Tom. Elements of Journalism: what news people should know and the public should expect. New York: Three Rivers Press, 2007, p. 6. (A primeira edição é de 2001).

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