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O TEATRO E O CINEMA EM WALTER BENJAMIN
Walter Benjamin (1892-1940) foi um dos filósofos modernos que mais incentivou em seus escritos a arte como instrumento de consciência para as massas, principalmente através do teatro e cinema.
Benjamin parte de duas premissas que estão ligadas ao materialismo histórico dialético: 1. levar em consideração a experiência de vida, inclusive da criança; 2. a autonomia do espectador, inclusive a criança, em refletir livremente sobre a obra de arte. Uma está relacionada à outra, porque a reflexão do espectador sempre parte da sua realidade de vida.
No texto “O que é o teatro épico” (1931) o autor chama a atenção para o desperdício da crítica sobre a representação teatral, uma vez que é de fato impossível, objetivamente, verdadeiramente, efetuar uma crítica que contenha a opinião de todos os espectadores e dos realizadores/ atores. No caso, Benjamin, esclarece que os realizadores/ atores são igualmente espectadores na medida em que o que concebem e encenam já está relacionado com suas experiências de vida, e que os espectadores são realmente os que tornam “reais” os fatos pela relação que fazem com suas próprias experiências.
No texto “Brinquedo e brincadeira” (1928) Benjamin afirma que a criança, e também o jovem adulto, adolescente, executa o mesmo processo relacional entre o espetáculo, a obra de arte, e a sua realidade experimentada. Portanto, se um adulto doutrinado e ideologizado tem “aversão” à cultura, a um espetáculo teatral ou um filme, o mesmo não acontece com uma criança e um adolescente, o que significa que se a criança e o jovem forem incentivados às artes os adultos os acompanharão, por necessidade ou por expectativa e curiosidade. E também que é um erro achar que uma criança, digamos a partir dos 10 anos de idade, só deva assistir a peças “especiais” para crianças, ao contrário, “especial” para ela é ir com os pais, ou familiares, assistir ao teatro e cinema de adultos [a criança e o jovem adulto têm condições de refletir e relacionar sobre fatos históricos ou eventos marcantes e sublimes que compõem sua história cultural, do mais geral ao mais específico, assim como devem frequentar exposições e museus].
O teatro épico [também o cinema, com a facilidade de sua reprodutividade técnica, portabilidade e linguagem acessível], quer dizer, aquele que relata os grandes acontecimentos históricos, os grandes eventos morais, as conquistas, a força do homem diante da natureza, a intervenção divina nos feitos humanos, as grandes obras das civilizações, os grandes conflitos políticos e/ou amorosos (quando não apenas estes últimos) [p. ex., Spartacus ou O Gladiador], este tipo de espetáculo, ao refletir a pesquisa histórica, evita que se façam críticas subjetivas e se induzam as massas a compressões subjetivas financiadas pelas elites e classes dominantes. Em suma, o que Benjamin pretende é incentivar um espetáculo que permita: 1. a relação com a experiência imediata do trabalhador; 2. autonomia para tirar suas próprias conclusões, e não seja submetido aos interesses mediáticos das classes dominantes; 3. as massas a tomarem consciência de sua situação social real, quem está de seu lado e quem as explora; e, importantíssimo, 4. perceber que coletivamente é possível revolucionar as condições sociais presentes de dominação e restrição de direitos e liberdade.
Por fim, se pensarmos mais detalhadamente, chegaremos à conclusão que a evangelização dogmática, conservadora, autoritária e ideologizante promovida por igrejas, templos, lojas, e demais instituições religiosas, são antes de tudo a “espetaculização do divino”, a encenação teatral e espetacular da representação da relação entre a vida sofrida e pobre dos fieis e a vitória sobre essas mesmas condições adversas. Estas não são nunca apresentadas realisticamente como descaso político, como ausência de políticas públicas e exploração do trabalho humano, mas como sofrimento, e investimento, necessário para a superação da indigência humana, aqui, medido pelo sucesso individual, e no além, por encomenda desse heroísmo pastoral de alguém, aquele que tem a palavra da “verdade”, um charlatão de verdade, como nas velhas indulgências que parte do cristianismo tanto lutou contra, mas que se repete por outros mecanismos e dentro de muitas destas instituições que se dizem cristãs, que apenas enfraquecem e emburrecem os homens.
O fascismo se alimenta disto: a ignorância vence porque povoa os espíritos de muitos. A principal tarefa cultural do socialismo é disputar e ocupar os espaços possíveis e impossíveis onde a espetaculização do culto chama a atenção e prende pelo espetáculo épico que promove, exatamente esse espetáculo que está imune à crítica dos críticos, na medida em que é “realista” do ponto de vista da aproximação que promove entre o acontecimento bíblico e a realidade experimentada pelo crente. E toda a atenção deve ser dada à educação cultural da criança e do jovem adulto.
Ao contrário disto, o que a democracia pseudoliberal burguesa promove? E a esquerda progressista? O abstracionismo, a idolatria do ininteligível, da instalação complexa, do filme mais surrealista, do teatro mais intelectualizado, da música de protesto etc. E aqui está o paradoxo: nas sociedades mais devastadas pelo capital internacional e nas comunidades mais pobres e menos letradas, a luta hoje é pela salvação da fome, da miséria, do fracasso, da doença.
O socialismo disputará cultural e realisticamente os espaços da fé controlados pelos governos de extrema-direita, ou sucumbirá à aliança da idolatria mentirosa da salvação e do sucesso monetário – a menos que reforce o heroísmo da luta dos dominados e excluídos por sua dignidade e potência em enfrentar epicamente os poderosos.

 Referências Bibliográficas:
1. Walter Benjamin. O que é teatro épico. Obras Escolhidas: Magia e Técnica; Arte e Política. Editora Brasiliense, 1994. v.1.; 2. Walter Benjamin. Brinquedo e brincadeira: observações sobre uma obra monumental. Obras Escolhidas: Magia e Técnica; Arte e Política. Editora Brasiliense, 1994. v.1.; 3. Terry Eagleton. A Morte de Deus na Cultura. Editora Record, 2016.

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