Fim ao Trabalho: Onde Erra a Esquerda e o Desespero

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Um dos erros mais graves da esquerda é a insistência em categorias que Marx e demais pensadores marxianos desenvolveram no século XIX – entre eles a luta de classes.

A luta de classes e a ditadura do proletariado são visões e práticas próprias do mundo do trabalho. Ora, contemporaneamente o trabalho acabou! O desespero é óbvio – sem os conceitos teóricos ligados à categoria do trabalho a esquerda ortodoxa parece não ter nada a não ser continuar a insistir na luta de classes e nas organizações tradicionais criadas no século XIX. Deixo aqui claro que essas lutas organizadas assim são importantes e úteis no enfrentamento com o capital etc, mas é apenas o que tem para agora. O mundo mudou, o capitalismo mudou, as tecnologias e as ciências exterminaram o trabalho e novos conceitos e perspectivas precisam ser formuladas para a superação do capitalismo como modo de produção. O trabalho acabou!, finalmente, diria Marx! Existem conceitos que são próprios da relação capital x trabalho do tempo de Marx que devem ser entendidos naquele momento histórico – o livro 1 do Capital é um manual de conceitos que explicam o funcionamento do capitalismo, mas não pode se ficar só nisso, pois esses mesmos elementos têm movimento. Esse é o problema: no pensamento da esquerda ortodoxa o movimento parece ter se perdido.

No livro 3 do Capital existe o resgate do movimento dialético – após ter explicado o capitalismo Marx desenvolve a ideia de uma lei geral da qual o capitalismo não pode fugir, conhecida por “tendência da diminuição da taxa de lucro”. Essa lei é geral e, claro, tem sua aplicação restrita a cada lugar e momento de desenvolvimento tecnológico da indústria e sociedade como um todo. Ela pode ser resumida assim: devido à concorrência e ânsia de acumulação privada, parte dos lucros dos investidores capitalistas voltam para a produção e circulação de mercadorias sempre em forma de novas tecnologias e ciências aplicadas ao trabalho mercantil. É isso que gera sempre mais achatamento de salários e desemprego. Apesar de novas qualificações e novas especialidades do trabalho aqui e ali, a massa de desempregados e pobres só aumentará.

O outro lado disto é que sem salários não existe consumo – isto raramente a esquerda ortodoxa fala, fica apenas na luta pelo emprego porque está presa em termos de trabalho, e porque acha que desempregados e salários baixos leva à revolução. E nessa armadilha a luta continua por trabalho etc… A luta deveria ser pelo fim do trabalho fabril-econômico, esse que gera mais valor e exploração do homem. Sem mão de obra também o capital não pode mais obter exploração do assalariado… Por isso o capital hoje é iminentemente virtual-financeiro. Para a economia capitalista girar precisa distribuir o capital para que as famílias consumam.

Mas o sistema só sabe fazer isso pagando salário – não havendo empregos a taxa de lucro obtida pelo mais valor diminui e o consumo idem. Só dá para sair desse paradoxo se o sistema distribuir renda para as pessoas consumirem mesmo sem trabalho nos moldes do antigo regime de salários. Então: o que acontece aqui? A sociedade começa um caminho final para a socialização de toda a riqueza material e imaterial, a distribuição da riqueza social para todos, conforme suas necessidades e de acordo com o plus de sua potencialidade (Marx – Crítica ao Programa de Gotha). Foi isso que Marx percebeu, e Engels e depois Althusser tardiamente. O Capital não termina no livro 1! Marx o reconheceu na “Introdução” quando fala da importância de Hegel para a história. A filosofia marxiana é processo dialético, história, a busca dentro deste processo por libertação do homem do trabalho mercantil que o escraviza, mais ainda no capitalismo.

Claro que isto é uma tendência às próprias leis do capital, e como tal não é observável de forma igual em todos os lugares. Mas em todos eles já está presente esse movimento! O capital sabe disso e sabe que isto não acontecerá de um momento para o outro, por isso tenta retardar a extensão de seu próprio movimento, com ditaduras, com a miséria, com a falta de instrução, com o fanatismo religioso e com a hegemonia na cultura. Não bastasse isso a esquerda ortodoxa acaba fazendo papel antigo e conhecido do capital, propondo estratégias para o trabalho ao invés de acelerar mais o seu fim (trabalho nos moldes do capital e produção de mercadorias). Marx precisa ser lido do começo ao fim e não apenas as partes que interessam a nossos propósitos. Os trabalhadores não podem mais servir aos interesses do capital e do poder, venha de onde vier.

O mundo está caminhando para o socialismo e as vanguardas de esquerda devem encaminhar os trabalhadores e as pessoas para a construção de um outro mundo, onde o dinheiro e o poder serão banais. Quem quer ajudar nesta construção? Todos os movimentos hoje que visam ao reconhecimento e liberdade são importantes e devemos caminhar juntos. Mas temos que ter novos olhares para o mundo que aí está. Não tem sentido dizer que a informalidade é trabalho – deve-se dizer que eles não deveriam mais estar ali e sim que o trabalho convencional acabou, e que a sociedade deve reciclar suas atividades e distribuir renda para atividades criativas pedagógicas solidárias. Recursos não faltam!


BIBLIOGRAFIA
Marx – Manuscritos Econômicos Filosóficos, Boitempo. 2008
Marx – Grundisse, Boitempo, 2011
Marx – Livro 3 Capital (além do 1), Boitempo, 2017
Engels – Cartas após a morte de Marx, Alfa-ômega, 1982, v.1-3
Althusser – Por Marx, Unicamp, 2015
Lenin – Últimos textos e cartas ao partido e comitês, Alfa-ômega, 1982, v.1-3
Robert Kurz – O colapso da modernização, Paz e Terra, 1993
Anselm Jappe – Crédito à morte, Hedra, 2013
John Hollway – Como mudar o mundo sem tomar o poder, Viramundo, 2003
Antonio Negri – Marx além de Marx, Autonomia Literária, 2016

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