Profissão de Advogado e o Mercado de Trabalho

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Confira entrevista de Dr. Marcus Reis à Revista Mercado Uberlândia

O diretor regional da Business Partners Consulting – empresa de consultoria estruturada em duas áreas de negócio: Consulting Services e Recruitment Services –, Carlos Contar, afirmou recentemente que hoje qualquer profissão requisita profissionais com diversas habilidades. Disse ainda que os profissionais de agora devem ter perfis estratégicos, proativos e com pleno entendimento dos negócios das organizações em que atuam.

A área de advocacia é um exemplo disso, até por causa do aumento do número de advogados no mercado, onde não há demanda para isso. Com mais de 713 mil inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) federal, o país está em terceiro lugar no ranking das nações que mais formam advogados no mundo.

Enfim, o mercado de trabalho para advogados, se ainda não se encontra saturado, está perto de estar, pelo grande número de profissionais formados. Nesse cenário, muitas empresas eliminaram a área jurídica de suas organizações e passaram a contratar escritórios externos para tratar desses assuntos. Entre os objetivos, está a intenção de reduzir custos fixos e o tamanho da estrutura organizacional. Assim, como alternativa, hoje um advogado pode ter sua própria banca, pode trabalhar associado em algum escritório de nome ou pode, aleatoriamente, conseguir um emprego de advogado em uma empresa não jurídica.

Diante disso tudo, cabe, porém, salientar que o advogado desempenha um papel especial na sociedade, afirmação fundamentada na Carta Constitucional, promulgada há mais de 20 anos, cujo artigo 133 determina ser o advogado indispensável à administração da justiça.

Assim sendo, para falar mais sobre como está o exercício da profissão no dias de hoje e também como anda o mercado de trabalho para os formandos em Direito, entre outras questões, o advogado Marcus Vinícius de Carvalho Rezende Reis concedeu entrevista à Revista Mercado Uberlândia. Formado há 17 anos, pós-graduado em Direito Civil e Processual Civil, Marcus Reis é também sócio-fundador do escritório Reis Advogados em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Fundado em 1967, na cidade de São Paulo, pelo advogado Morival Reis – pai de Marcus –, essa empresa de advocacia tem, portanto, 43 anos de serviços prestados na administração da justiça em áreas como Direito do Agronegócio e Direito Bancário, entre outras, prestando assessoria jurídica a grandes empresas do país.

O senhor concorda que o atual mercado de trabalho para o advogado no país está mais competitivo e escasso?

Concordo plenamente. Essa é uma preocupação inclusive da Ordem dos Advogados do Brasil. O problema está na quantidade e qualidade de novos cursos de Direito à disposição em todo o país. Houve uma época em que, para se formar em Direito, o estudante tinha que se mudar para os grandes centros, normalmente as capitais dos estados. Hoje, os cursos de Direito estão pulverizados, na região sudeste, em todas as cidades com mais de 30 mil habitantes. Esse fator implica o incremento de milhares de bacharéis a cada ano, oriundos de centros de formação com qualidade duvidosa, tornando o mercado para esses profissionais cada vez mais competitivo e escasso.

A que o senhor atribui essa grande procura pelo curso de Direito no Brasil?

É um curso de fácil acesso, presente na esmagadora maioria das universidades do país, adicionado ao enorme leque de opções de carreira que aproveitam a formação de um bacharel em Direito. Exemplo disso é a quantidade de concursos públicos que exigem conhecimento específico na área do Direito.

Como o senhor vê o Direito hoje? Ele já foi diferente do atual? O que mudou?

O Direito hoje está massificado. Enquanto o “Dr. Google” e afins disponíveis na rede mundial se tornaram ferramentas facilitadoras, em outros tempos, a exemplo da época de meu pai, Dr. Morival Reis, formado na década de 60, e ainda em plena atividade, o advogado, na solução dos problemas de seus clientes, tinha que lançar mão de enorme quantidade de livros e tempo de pesquisa para a formatação de suas teses. A pesquisa à moda antiga aguçava o raciocínio jurídico, ao passo que, nos dias atuais, a utilização exclusiva da internet tende a limitar o profissional, que passa a adaptar teses previamente elaboradas.

Como o senhor avalia o relacionamento da tríade advogado, Justiça e leis no Brasil?

As três partes são interdependentes. Na realidade, o Direito deve acompanhar a evolução da sociedade, e nunca o inverso. Assim, o advogado, a Justiça e as leis devem interagir de forma harmônica e equilibrada em prol da sociedade. Infelizmente, avalio que as leis são, em grande parte, mal elaboradas e dissonantes da realidade social, o que torna hercúleo o trabalho dos advogados e órgãos judiciais no afã de aplicá-las aos casos concretos. Aliado a isso, a sociedade cresce em velocidade desproporcional ao Poder Judiciário, que, sempre zeloso pela qualidade de formação de seus representantes, sofre com a avalanche de novas demandas que a cada dia aportam em nossos fóruns.

Baseado em sua experiência de mercado, e falando diretamente a quem deseja fazer o curso de Direito, em quais áreas ou segmentos o bacharel em Direito pode atuar? Quais são as mais concorridas?

Atualmente, cerca de 90% dos estudantes de Direito ingressam no curso almejando a aprovação em concurso público, sendo que boa parte deles visa à estabilidade e aos bons salários pagos pelo estado. A mínima parte desses bacharéis tem se interessado pelo exercício da advocacia, sobremaneira pelas dificuldades da profissão, tais como a grande concorrência, as questões salariais e as exigências adicionais que o mercado impõe ao profissional do ramo privado.

Como se vê, a diferença é gritante. O concurso público é muito procurado, em especial para as carreiras da Magistratura e do Ministério Público, as mais desejadas, e, portanto, as mais concorridas; já entre os advogados, temos nas áreas cível e trabalhista a maior incidência de profissionais atuantes.

Em se falando do Direito Empresarial, sua grande expertise, como o senhor vê a área de advocacia empresarial no Brasil? Onde ainda há possibilidades de crescimento?

Há bem mais de uma década, identifiquei que a advocacia empresarial no Brasil tendia ao modelo das firmas norte-americanas, nas quais os profissionais do Direito se apresentam organizados em grandes sociedades de advogados. Dessa forma, como gestor do escritório Reis Advogados, passei a me preocupar e a direcionar o modelo administrativo de nossa organização para se tornar uma autêntica empresa de prestação de serviços, apta ao atendimento de outras empresas. Formatação essa que se tornou, mais que uma tendência, verdadeira exigência do mercado empresarial. O empresário de hoje quer advogados que falem a sua língua, que o entendam e apresentem soluções personalizadas à sua realidade.

As maiores possibilidades de crescimento se encontram no interior do país, onde os investimentos em agronegócio, energia, recursos naturais, meio ambiente e infraestrutura estão presentes. As indústrias estão deixando as capitais e migrando para o interior. Esse foi o maior motivo de nossa vinda para Uberlândia, segunda maior cidade do interior brasileiro, um dos centros mais promissores do país.

Na sua visão, existe alguma premissa básica para o relacionamento advogado/cliente?

Por mais moderno que tenha se tornado o exercício da advocacia, confiança, segurança e honestidade nunca deixarão de ocupar o cerne do relacionamento advogado/cliente.

Como avalia a afirmação: “É impossível atender o cliente sem ser um bom técnico. E é também impossível ser um bom técnico sem entender do negócio do cliente”?

Como já disse, a maioria dos estudantes de Direito prefere a carreira pública à advocacia, em razão, dentre outras, das dificuldades impostas ao advogado. As faculdades de Direito transmitem o conhecimento simplesmente. Não preparam os futuros advogados para todos os desafios do mercado de trabalho, em especial para as particularidades dos negócios de seus clientes, nem para a forma de se relacionar com eles. O advogado, além de deter conhecimento jurídico, deve vivenciar o cotidiano de seu cliente, a fim de que possa aplicar as melhores soluções aos anseios dele. O Direito tende a seguir o exemplo da Medicina, em que o profissional, após receber o conhecimento geral de formação, passa pela chamada “residência” para, então, especializar-se no ramo médico de sua preferência.

Nestes anos de profissão, houve algum momento crítico em que foi preciso superar barreiras?

A superação deve ser meta pessoal de todo ser humano. Evolução é meta universal. A vida do advogado é uma sequência de momentos críticos. É bom estar preparado a cada dia.

O que o senhor espera da nova conjuntura política e como isso pode motivar negócios no nosso país?

Desde a era FHC, nosso país passou a trilhar os caminhos do desenvolvimento. Lula soube dar boa continuidade a essa marcha. Assim, como dito pelo economista-chefe do Bradesco, Dr. Octávio de Barros, em relação ao novo governo, “para se chegar à vitória, bastará seguir à risca a lição de casa. Sem estripulias”.

Mudando um pouco o foco do assunto, e agora falando mais diretamente aos novos advogados, que lições o senhor tem tirado do exercício do Direito?

Creio que o homem deve acreditar em seus sonhos, persistir neles e, como acredito que a dignidade pessoal deve sempre preceder à profissional, àquele que quer se tornar um grande advogado diria para olhar primeiro para dentro de si próprio e fazer uma autoanálise. Se gostar do que viu, por certo terá sucesso em sua carreira profissional.

Na sua opinião, a criação dos juizados especiais contribuiu para o acesso à Justiça? Seria essa a melhor alternativa para aproximar a Justiça dos socialmente excluídos?

Sem dúvida, os juizados especiais representam uma grande evolução no tocante ao acesso à Justiça. Porém, o crescimento vertiginoso de demandas nesses juizados chama atenção à necessidade, contínua e constante, da melhoria de estrutura e capacidade de atendimento da Justiça.

Qual ou quais perspectivas o senhor vislumbra para os futuros profissionais da área? Quais os requisitos básicos para quem deseja entrar neste setor? Que conselhos daria a essas pessoas?

Segundo os especialistas, o Brasil será, em alguns anos, a quarta economia do planeta. A melhoria das condições de vida da população é fato notório. A consequência disso para o Direito é o aumento de demanda em todas as esferas. Conhecimento de mercado e estudo direcionado são os requisitos básicos para quem deseja entrar neste setor.

Por que resolveram investir em Uberlândia e região?

Como já disse, cremos que a força do crescimento de nosso país está no interior. Grandes centros, como São Paulo, estão se tornando um grande polo prestador de serviços, enquanto as indústrias estão migrando para regiões como a nossa. O potencial logístico da região, com elevado índice de desenvolvimento humano (IDH), localização geográfica privilegiada, boas condições de acesso, aeroporto com boa oferta de voos para as principais regiões de nosso país, entre outros foram elementos cruciais à escolha.

Qual é a importância da boa gestão em uma banca competitiva?

Não é questão de importância, mas de sobrevivência! Quando um escritório passa ao status de banca de advocacia, a gestão tem papel preponderante no sucesso ou fracasso dela. Os grandes escritórios estão cada vez mais profissionalizados. Arrisca-se a banca que ainda utiliza seus sócios com formação apenas em Direito como gestores. A competitividade e o alto grau de exigência dos clientes exige respostas personalizadas e profissionais. Quem busca hoje os serviços de uma banca de advocacia empresarial avalia primeiro questões relacionadas à gestão do escritório, para somente depois avaliar o grau de conhecimento de seus componentes.

Em sua opinião, quais os pré-requisitos para que se contratem estagiários e advogados? Como o seu escritório faz a seleção?

Os pré-requisitos variam muito conforme a vaga a ser preenchida. Poderia enumerar alguns mais comumente analisados em nossos processos seletivos: perfil para trabalho em equipe, comportamento em situações de estresse e pressão, proatividade, entre outros. Nosso escritório contrata por competência, de maneira personalizada. Isso significa que um bom currículo pode não completar os requisitos para uma dada vaga específica. Em razão da departamentalização, os mais variados perfis, juntos, são capazes de formar uma equipe de excelência.

Por que, em qualquer lugar do país, mesmo com 713.000 advogados, está tão complicado encontrar bons advogados para contratar para as bancas? E quais as medidas que os sócios da banca devem tomar?

Esse é um problema recorrente em todas as profissões atualmente no Brasil. Falta mão de obra qualificada. Nunca em nossa história fomos tão carentes de mão de obra qualificada como agora. Não basta ser advogado, não basta ter um currículo razoável. O candidato à vaga de uma banca de advocacia precisa demonstrar habilidades outras que não se encontram na grade curricular de uma boa escola de Direito. Sustentabilidade, globalização, informática, línguas, ações sociais, tão em moda atualmente, bem representam essas necessidades. Os sócios das bancas atuais devem valorizar o material humano. A maior riqueza de uma empresa são seus funcionários.

Pautado nos mais de 40 anos que o Reis Advogados tem de mercado, quais são as diferenças mais significativas que o senhor pontua comparando a advocacia da década de 70 com os modelos atuais de gestão de escritórios?

Pude vivenciar esse verdadeiro choque de gerações no simples relacionamento com os advogados antigos da família. Mas, em linhas gerais, posso dizer que a advocacia da década de 70 não existia dissociada da pessoa do advogado. Hoje, com bancas gigantescas, verdadeiras empresas de grande porte, essa despersonalização se faz cada vez mais presente. Em grandes centros, já não mais se contrata o advogado, mas o escritório.

Por uma necessidade de mercado e de planejamento administrativo, muitos escritórios de advocacia estão sendo compelidos a lançar mão de um novo personagem dentro da banca: o administrador legal. Como avalia isso?

Esse é um caminho que, a exemplo do marketing jurídico, vem ganhando cada vez mais força. Nosso escritório já conta com esse tipo de profissional. Nossas áreas administrativa e financeira são controladas por colaboradores com formação em administração e finanças. Avalio também essa nova figura como necessária e irreversível.

Qual a sua opinião sobre a entrada de bancas estrangeiras no país? Isto significa algum tipo de ameaça à advocacia ou serve como estímulo ainda maior ao aperfeiçoamento da administração legal?

Não creio que seja uma ameaça, mesmo porque essas bancas estrangeiras, que, cada vez mais, aportarão no país, precisam de advogados brasileiros para subsistir. Além disso, o judiciário brasileiro assusta essas bancas ao representar um emaranhado de leis e interpretações que nos torna praticamente impenetráveis às bancas estrangeiras.

Para finalizar, que dicas o senhor daria para quem planeja fazer parte de uma banca de longa duração?

Cuide de sua formação com muita atenção. Vá além do Direito, especialize-se, comece a se interessar pelo mercado, esteja conectado, antecipe tendências e seja autêntico. Diferencie-se.


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