Conceitos de sensação e percepção na psicologia jurídica

Conceitos de sensação e percepção na psicologia jurídica

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Conceitos de sensação e percepção na psicologia jurídica

“Sensação” e “percepção” constituem um processo contínuo, que se inicia com a recepção do estímulo (interno ou externo ao corpo) até a interpretação da informação pelo cérebro, valendo-se de conteúdos nele armazenados.

Didaticamente, pode-se pensar na sensação como a operação por meio da qual as informações relativas a fenômenos do mundo exterior ou ao estado do organismo chegam ao cérebro. Essas informações permitem ao cérebro compor uma imagem mental correspondente a elas.

A percepção, etapa seguinte, realiza a interpretação da imagem mental resultante da sensação. Kaplan e Sadock (1993, p. 237) definem percepção como um “processo de transferência de estimulação física em informação psicológica; processo mental pelo qual os estímulos sensoriais são trazidos à consciência”.

Características das sensações

 

Para a psicologia jurídica, é relevante destacar:

– Algumas pessoas experimentam sensações decorrentes de mínimas transformações fisiológicas em seus interlocutores. Tem-se a impressão de que “adivinham emoções”; por exemplo, detectam se a pessoa mente ou irá fazê-lo. Em geral, desconhecem a própria habilidade, desenvolvida e aperfeiçoada inconscientemente, por meio do contato frequente com os mais variados tipos de pessoas;

– A emoção afeta a sensação. Durante um conflito, os participantes tornam-se mais sensíveis a estímulos como luz, calor, ruído, movimentos dos opositores etc. Também pode ocorrer redução seletiva da sensibilidade (uma forma de o psiquismo proteger-se contra algo que o agride profundamente). A pessoa, por exemplo, sofre um “bloqueio” que a impede de ver, recordar etc.

– A sensação possui um limiar inferior, variável de pessoa para pessoa, abaixo do qual o estímulo não é reconhecível. A informação é ignorada porque a intensidade do estímulo (visual, auditivo etc.) foi insuficiente para produzir a sensação.

– Existe um limiar superior, acima do qual ocorrem danos nos mecanismos de recepção dos estímulos (eventualmente, provocando dor) e/ou se atinge um “patamar de saturação”. Surge o bloqueio da sensação.

Informações em excesso deixam de ser registradas porque o cérebro não consegue administrar a totalidade e descarta uma parte delas.

– O estado emocional afeta, também, os limiares de sensação. Quando se tem raiva de alguém, um som, um suspiro, um esboço de sorriso são registrados com intensidade muito maior.

– O álcool (e outras substâncias psicoativas) altera a interpretação dos efeitos de diversos estímulos (distância, temperatura, dor etc.). Ainda que o indivíduo tome consciência do estímulo, a reação será inadequada. Alcoolistas podem ter maior dificuldade para compreender orientações e esquecer ou confundir seus conteúdos; mesmo pequenas quantidades de bebida alcoólica podem ocasionar esses efeitos (daí, provocarem acidentes de trânsito);

– O estresse aumenta a sensibilidade a ruídos; a pessoa torna-se menos tolerante, e isso aumenta o estresse e afeta os comportamentos em situações de conflito, quando se depara com pessoas que lhes despertam emoções negativas. O estado de estresse altera as descrições dos eventos e compromete a observação. A sensação depende do estímulo e da capacidade do indivíduo de captá-lo; a percepção depende de acontecimentos anteriores que envolveram o mesmo estímulo (ou outros semelhantes) e que afetam a interpretação da sensação pelo cérebro.

Fatores que afetam a percepção

 

O mesmo conjunto de estímulos gera diferentes percepções em diferentes pessoas. Cada pessoa reage à sua maneira aos vários tipos de estímulos: uma percebe melhor palavras; outra, gestos; uma terceira, cores, e assim por diante. Inúmeros fatores, como os descritos a seguir, afetam a percepção.

a) Captura visual

Ocorrendo conflito entre a visão e os demais sentidos, predomina a percepção provocada pelo estímulo visual (MYERS, 1999, p. 129).

b) Características particulares do estímulo

Intensidade, dimensões, mobilidade, cor, frequência, enfim, tudo o que permita estabelecer diferenças contribui para melhorar a percepção.

c) Experiências anteriores com estímulos iguais ou semelhantes

A prática melhora o reconhecimento de detalhes; quem trabalha com cores (um pintor, uma decoradora) distingue nuances que passariam despercebidas pela maioria das pessoas.

d) Conhecimentos do indivíduo

Um médico percebe facilmente detalhes relacionados com o estado do organismo, por exemplo; um costureiro relata com precisão características de indumentária etc.

e) Crenças e valores

A pessoa que acredita que “todo político é desonesto” percebe sinais de desonestidade nas propostas ou atos de qualquer político. A percepção atua para confirmar a crença.

f) Emoções e expectativas envolvendo o estímulo ou as circunstâncias que o geram

Quem presencia um acidente com mortos e feridos tem percepções diferentes daquelas que um acidente semelhante, porém limitado a danos materiais, lhe proporcionaria. O estado emocional afeta profundamente a percepção, a fixação de conteúdos na memória e a posterior recuperação deles. Wright (1996, p. 66) acentua que “o indivíduo percebe de acordo com suas expectativas”, fenômeno amplamente conhecido por especialistas em combate ao uso de drogas. Jovens “surpreendem” seus pais quando identificados como consumidores e/ou traficantes de drogas; na verdade, a família “ignora” os indícios dessa realidade. De modo similar, “não se percebem” sinais de gravidez da filha adolescente, da traição do cônjuge etc.

g) A situação em que a percepção acontece

A esposa arma um escândalo porque encontra o marido almoçando, em um restaurante, acompanhado de outra mulher. O mesmo fato seria interpretado de diferentes maneiras em outro momento ou lugar. A situação combina-se com a expectativa.

Percepção se aprende ao longo da vida, bem o sabem, por exemplo, advogados, professores e líderes religiosos. Entretanto, a capacidade perceptiva, se não exercitada, pode regredir.Na adolescência, é nítido o efeito da aprendizagem perceptiva sobre o comportamento. O desenvolvimento físico e psicológico acentuado faz com que os jovens voltem suas atenções e percepções para novos estímulos, nos quais se concentram, dando menor atenção a outros (por isso, podem parecer relapsos, desatentos etc.); faz parte do processo de aprendizagem.

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