Análise de repercussão geral da tese da revisão da vida toda

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Marco Aurélio Serau Junior e Roberto de Carvalho Santos*

O Supremo Tribunal Federal está debatendo, no Plenário Virtual, o tema 1.102, discutindo inicialmente se ocorre a configuração da repercussão geral (arts. 102, § 3º, da Constituição Federal e 1.035 do CPC/15) do tema da tese revisional previdenciária conhecida como revisão da vida toda.

É importante frisar que esse tema não é dotado de repercussão geral porque sequer se trata de matéria com respaldo constitucional direto.

A disciplina do cálculo do valor dos benefícios previdenciários é, desde as alterações introduzidas pela emenda constitucional 20/98, matéria de cunho essencialmente infraconstitucional.

A forma de cálculo dos benefícios previdenciários era contemplada na redação original do art. 202, do texto constitucional, adiante transcrito:

Art. 202. É assegurada aposentadoria, nos termos da lei, calculando-se o benefício sobre a média dos trinta e seis últimos salários de contribuição, corrigidos monetariamente mês a mês, e comprovada a regularidade dos reajustes dos salários de contribuição de modo a preservar seus valores reais e obedecidas as seguintes condições:

Esse dispositivo, contudo, foi alterado pela emenda constitucional 20/98, que o dedicou à Previdência Complementar. Doravante a questão do cálculo do valor dos benefícios previdenciários restou a cargo do art. 201, § 3º, que apenas sinaliza a atualização dos salários de contribuição e remete a forma de cálculo à norma infraconstitucional:

§ 3º Todos os salários de contribuição considerados para o cálculo de benefício serão devidamente atualizados, na forma da lei.

Vale dizer que a metodologia de cálculos do valor dos benefícios previdenciários somente retorno ao bojo do Texto Constitucional com o art. 26 da emenda constitucional 103/19. Antes dessa recente alteração normativa, porém, prevalece a compreensão já mencionada acima, no sentido de que se trata de matéria evidentemente infraconstitucional.

Assim, a tese da revisão da vida toda só alcança a Constituição Federal indireta ou reflexamente, configurando a barreira de admissibilidade dos recursos extraordinários que é bastante conhecida como ofensa indireta ou ofensa reflexa à Constituição. Nas palavras do Mestre Araken de Assis:

“Entende-se por ofensa reflexa, oblíqua ou indireta a necessidade de interpretar norma infraconstitucional ou tratado para chegar à conclusão que sua aplicação violou norma constitucional. (…) Em tais casos, inexistirá repercussão geral.”

(ASSIS, Araken. Manual dos Recursos, 9ª ed., S. Paulo: Revista dos Tribunais, 2017, p. 896)

É importante registrar que há inúmeros precedentes do próprio STF em que se decidiu que a apreciação desse tema incidiria na análise de legislação infraconstitucional, o que inviabiliza a própria admissão do recurso extraordinário: ARE 1.216.156, relator ministro Gilmar Mendes, publicacao em DJe-101 de 27/4/20; RE 1.258.980, relator ministro Luiz Fux, publicacao em DJe-058 de 16/3/20; ARE 1.193.778, relator ministro Alexandre de Moraes, publicacao em DJe-055 de 21/3/19; ARE 1.173.002, relator ministro Celso de Mello, publicacao em DJe-262 de 6/12/18; ARE 1.130.537, relator ministro Edson Fachin, publicacao em DJe-110 de 5/6/18.

No mesmo rumo, pode-se sublinhar que os dois votos que já foram apresentados no Plenário Virtual quanto ao tema 1102 admitem que a tese da revisão da vida toda não configura reafirmação de jurisprudência.

De fato, não se trata de reafirmar jurisprudência, visto que esta não há, dado que o STF vêm até então compreendendo que o tema é infraconstitucional.

O julgamento desta primeira fase, no plenário virtual, tem previsão para ser concluído agora no dia 27 de agosto, razão pela qual o IEPREV emite a presente nota técnica externando sua preocupação com o eventual juízo de admissibilidade do RE interposto pelo INSS. Eis o atual placar:

Tema

1102 – Possibilidade de revisão de benefício previdenciário mediante a aplicação da regra definitiva do artigo 29, incisos I e II, da Lei nº 8.213/91, quando mais favorável do que a regra de transição contida no artigo 3º da Lei nº 9.876/99, aos segurados que ingressaram no Regime Geral de Previdência Social antes da publicação da referida Lei nº 9.876/99, ocorrida em 26/11/99.

Classe: RE

Número: 1276977

Data de Início: 07/08/2020

Data Prevista Fim: 27/08/2020

Relator: MINISTRO PRESIDENTE

Em linhas gerais, deve-se resgatar que desde a própria implementação da sistemática do fator previdenciário, com a lei 9.786/99, que regulamentou as alterações trazidas pela emenda constitucional 20/98, a metodologia de cálculo dos benefícios previdenciários é matéria infraconstitucional na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.

Com efeito, a ADIn 2.111/DF, ao decidir pela constitucionalidade do fator previdenciário, então recém implementado, fundamentou-se no sentido de que se tratava de simples e necessária regulamentação legal de dispositivo constitucional.

Por todos estes argumentos, espera-se que o Excelso Pretório não reconheça a repercussão geral da matéria, visto que o conteúdo tratado no Tema 1102 não possui envergadura constitucional.

FONTE: MIGALHAS

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__________

*Marco Aurélio Serau Junior é diretor Científico do IEPREV – Instituto de Estudos Previdenciários.

*Roberto de Carvalho Santos é presidente do IEPREV – Instituto de Estudos Previdenciários.


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9 respostas para “Análise de repercussão geral da tese da revisão da vida toda”

  1. Suzana Sanches lino disse:

    A lei tem que ser respeitada,STF está pondo em risco seu papel, legislando para os governantes, seu papel deveria ser isento e voltado para os governados.
    Estará decretando sua morte, que devolvam as contribuições então.

  2. Newton jose de souza lima disse:

    Precisamos dos nossos direitos adquiridos resgatados dentro da constituição, trabalhamos a vida toda e temos direito.

  3. Arlindo Brito disse:

    Se o TRF julgar o trabalhador e não o INSS, haverá um julgamento de Deus nos dizeres biblicos,não julgue para não ser julgado.

  4. Paulo arruda disse:

    Como pobre sofre um direito nosso q está nas mãos dos homens mais desonestos do país q não gostam de pobres no caso desses ministros do stf um processo q já foi julgado pelo o stj e q tds sabem q é infraconstitucional e q portanto não cabe o stf entrar na seara do assunto é um direito q o INSS nos roubou e q o stj nos deu o direito para q nos possamos recuperar o q nós foi tomado ao stf esperamos q não vá nos prejudicar e q resolva logo pois estamos necessitados de recuperar o q é nosso!!!

  5. Ivany lisbôa disse:

    Sr.Ministro do STF, quandopartilhamos regras do governo é pq temos uma meta de circunstâncias para garantir projetos futuros, esses não foram respeitados e me tornaram após 21 anos de contribuição pelo valor máximo, uma idosa que recebe o mínimo, o STF é para nos proteger dessas aberrações, porfavor, aprovem a revisão para os que estão desmoralizados na sociedade!

  6. Marcelo Nassif disse:

    Muito Bom essas manifestações.Estou na espectativa na decisão do STF. Entrei na justiça através de meu advogado. Estou no aguardo dessa decisão. Espero que os Ministros ponham a mão na consciência nessa hora. Que DEUS nós Abençoe

  7. Marcelo Nassif disse:

    Teria algum órgão lutando por essa causa. REVISÃO DE VIDA TODA. Quando vai acontecer esse julgamento??

  8. Aparecido Jose Pereira disse:

    srs Ministros do DTF e lamentavel, o que os senhores vem fazendo com os aposentados, que contribuiram por anos de sua vida com o teto previdenciarioe hoje estar sobrevivendo com um misero salario minimo. Esse valor que hoje recebemos creio que e o gasto diario de um ministro, contamos wue voces acordem e tome uma decisao urgente para tirar nossos aposentados da miseria em que vivem,

  9. Dausa Barbosa disse:

    Peco ao stf a quem possa
    Que mos ajude pelo amor de Deus.o idoso aposentado estamos passando por serias nescessidades.nao temos dinheiro nem pra comprar nossos medicamentos senhores ministros stf mos ajude a resgatar o que e o nosso por direito .Que Deus nos ajude

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