Do taylorismo ao modelo organizacional em rede: informação e conhecimento

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Antes mesmo da criação da Internet, já se havia constatado o papel de centralidade da informação[23] para otimizar o desenvolvimento econômico[24]. Com o taylorismo, passou-se a estudar o próprio processo de produção, investindo-se, por exemplo, em treinamento dos operários para se alcançar melhores taxas de produtividade[25]. Portanto, desde a sociedade industrial, já se reconhecia a informação como um fator determinante para a geração de riquezas.

Contudo, é apenas com a mencionada evolução de ordem quantitativa e qualitativa no processamento das informações, que é selado o processo de transição da sociedade pré-informacional para a sociedade informacional. Quem bem elucida tal processo é o sociólogo Manuel Castells, ao pontuar a diferença entre tais formas de organização social, com base no exemplo dos modelos das empresas organizadas em rede.

Ao contrário de uma única empresa centralizar e verticalizar em si todo o processo de produção – da fase de concepção à distribuição de um bem de consumo –, o modelo organizacional em rede prima por um conjunto de empresas que atuam de maneira colaborativa. Cada qual atua de acordo com uma função pré-estipulada[26], o que torna a atividade empresarial descentralizada e horizontal[27].

Por essa estrutura, uma série de empresas está interconectada para fornecer um bem de consumo. Por exemplo, a Benetton não produz propriamente suas roupas, que nem são por ela comercializadas. O processo fabril acontece em algum país do sudeste asiático ou do leste europeu[28] e a distribuição acontece em lojas que são em sua grande maioria franqueadas.

Ou seja, a Benneton processa basicamente informações. Ela verifica as tendências do mercado para a projeção dos seus produtos, transmitindo-as29 às outras empresas responsáveis pelo processo fabril[30].

O mesmo sucede com outra multinacional do segmento de vestuário: a Zara. Os seus lojistas registram os dados das vendas, compartilhando-os com o centro de criação da marca em La Coruña. Uma vez constatada a reação do mercado, isto é, quais itens foram mais aceitos pelos consumidores, os produtos são (re)projetados com base em tal padrão de consumo. Somente após tal retroalimentação, inicia-se, novamente, o processo de produção do bem de consumo.

Muitas outras empresas poderiam ser citadas, que também operam com base em tal modelo organizacional em rede[31]. O fato é, no entanto, que tal estruturação somente foi aperfeiçoada por conta do citado avanço em termos de tecnologias da informação e comunicação/TICs[32]. Isso permitiu ao fluxo informacional[33] avocar o papel de recurso determinante no ciclo econômico[34], preponderando sobre quaisquer outros meios de produção[35].

Essa afluência de fatores é o que organiza a trama[36] da economia informacional. Realocando a semântica de virtualização[37], pode-se dizer que tal conjuntura estabelece uma nova dinâmica para a geração de riquezas38. Trata-se de uma economia que passa a ser “interconectada por um sistema nervoso eletrônico”[39].

A menção ao termo no sentido figurado – “sistema nervoso eletrônico” – esclarece não se tratar, apenas, de uma economia da informação, mas, necessariamente, do conhecimento. A informação em si não é o que alavanca eficiência na atividade empresarial, mas o seu processamento-organização a ser transformado em um conhecimento aplicado[40]. No caso da Zara, os bens de consumo são reprojetados de acordo com a reação do mercado consumidor, sendo este o conhecimento gerado dos dados extraídos das vendas junto ao seu público-alvo.

E, nesse sentido, as informações sobre os hábitos de consumo dos cidadãos, afora outros dados pessoais, permitem empreender de forma mais eficiente no mercado[41]. Aumentam-se as possibilidades de êxito junto à audiência, seja melhorando a concepção e a segmentação de um produto ou serviço, seja no que pertine à abordagem publicitária para promovê-los.

A informação deve ser, assim, convertida em um conhecimento[42], a fim de torná-la produtiva e estratégica para a atividade empresarial[43]. Por isso, é a matéria-prima de uma economia redimensionada pelos avanços das TICs, destacando-se os dados pessoais dos cidadãos que passam a ditar uma (nova) lógica de acumulação de capital[44] para a geração de riquezas[45].

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[23] Ibidem, p. 31.

[24] LISBOA, Roberto Senise. Direito na sociedade da informação. Revista dos Tribunais, ano 95, v. 847, p. 78, maio 2007.

[25] DRUCKER, Peter. A sociedade pós-capitalista. Trad. Nivaldo Montigelli Jr. São Paulo: Pioneira, 1993. p. 15-20.

[26] CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Tradução Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 58: “entendo por isso a forma organizacional construída em torno de projetos de empresas que resultam da cooperação entre diferentes componentes de diferentes firmas, que se interconectam no tempo de duração de dado projeto empresarial, reconfigurando suas redes para a implementação de um projeto”.

[27] CASTELLS, Manuel. A sociedade… cit., p. 220-233.

[28] KOSKINS, Tasny. Luxury brands: higher standards or just a higher mark-up? Disponível em: <https://www.theguardian.com/sustainable-business/2014/dec/10/luxury-brands-behind-gloss-same-dirt-ethics-production>.

[29] DANTAS, Marcos. Capitalismo na era das redes. In: LASTRES, Helena M. M.; ALBAGAJI, Sarita (Org.). Informação e globalização na era do conhecimento. Rio de Janeiro: Campus, 1999. p. 220: “Em suma, executivos, analistas de mercados, estilistas, desenhistas, fotógrafos, engenheiros de computação, economistas, muitos outros técnicos da Benetton, trabalham obtendo informação, processando informação, registrando informação e comunicando informação”.

[30] CASTELLS, Manuel. A galáxia… cit., p. 64.

[31] Ibidem, p. 62.

[32] DANTAS, Marcos. Capitalismo… cit., p. 225.

[33] BOULDING, K. E. The economics of knowledge and the knowledge of economics. In: LAMBERTON, D. M. (Ed.). Economics of information and knowledge, selected readings. Baltimore: Penguin Books, 1971. p. 29.

[34] MELODY, William H. Op. cit., p. 59: “One important distinction between the industrial economy and the evolving new knowledge economy is the shift in emphasis from a primary focus on the transformation of material resources, that is, the physical production of goods, to a focus on improving and facilitating transaction capabilities, that is, generating and communicating information to facilitate exchange transactions”.

[35] LISBOA, O Direito… cit., p. 85.

[36] LÉVY, Pierre. O que é virtual. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 2011. p. 47: “Enfim, e sobretudo, um computador ramificado no hiperespaço pode recorrer às capacidades de memória e de cálculo de outros computadores da rede (que, por sua vez, fazem o mesmo), bem como a diversos aparelhos distantes de captura e de apresentação de informação. Todas as funções da informática (captura, digitalização, memória, tratamento e apresentação) são distribuíveis e, cada vez mais, distribuídas. O computador não é um centro, mas um pedaço, um fragmento da trama, um componente incompleto da rede calculadora universal” (grifos).

[37] LÉVY, Pierre. O que é… cit., p. 17-18: “Mas o que é a virtualização? Não mais o virtual como maneira de ser, mas a virtualização como dinâmica. A virtualização pode ser definida como o movimento inverso da atualização. Consiste em uma passagem do atual ao virtual, em uma ‘elevação à potência’ da entidade considerada. A virtualização não é uma desrealização (a transformação da realidade num conjunto de possíveis), mas uma mutação de identidade, um deslocamento do centro de gravidade ontológica do objeto considerado: em vez de definir principalmente por sua atualidade (uma solução), a entidade passa a encontrar sua consistência essencial num campo problemático” (grifos).

[38] Ibidem, p. 18: “Virtualizar uma entidade qualquer consiste em descobrir uma questão geral à qual ela se relaciona, em fazer mutar a entidade em direção a essa interrogação e em redefinir a atualidade de partida como resposta a uma questão particular”.

[39] CASTELLS, Manuel. A galáxia… cit., p. 57: “O que está surgindo não é uma economia ponto.com, mas uma economia interconectada com um sistema nervoso eletrônico”.

[40] CASSIOLATO, José Eduardo. A economia do conhecimento e as novas políticas industriais e tecnológicas. In: LASTRES, Helena M. M.; ALBAGAJI, Sarita (Org.). Informação e globalização na era do conhecimento. Rio de Janeiro: Campus, 1999. p. 175: “As tecnologias de informação e comunicações afetam e influenciam significativamente os processos de aprendizado fundamentais para a organização da informação que é, por sua vez, atividade básica para a geração de conhecimento”.

[41] BOULDING, K. E. Op. cit., p. 24.

[42] AMARAL, João Ferreira do. Economia… cit., p. 116: “O que faz a empresa ganhar dinheiro não é receber a informação em si própria. É transformar essa informação em conhecimento que depois é aplicado. Falta-nos por isso introduzir a questão da transformação da informação em conhecimento”.

[43] DUCKER, Peter. Op. cit., p. 149: “A produtividade do conhecimento será o fator determinante da posição competitiva de uma empresa, de uma indústria, de todo um país. Nenhum país, indústria ou empresa tem uma vantagem ou desvantagem ‘natural’. A única vantagem possível é a capacidade para explorar o conhecimento universalmente disponível. A única coisa que será cada vez mais importante, tanto na economia nacional como na internacional, é o desempenho gerencial para tornar produtivo o conhecimento”.

[44] MELODY, William H. Op. cit., p. 66; BOULDING, K. E. Op. cit., p. 23. No mesmo sentido: DUCKER, Peter. Op. cit., p. 21: “Os tradicionais ‘fatores de produção’ – terra (isto é, recursos naturais), mão de obra e capital – não desaparecem, mas tornaram-se secundários, eles podem ser obtidos facilmente, desde que haja conhecimento. E o conhecimento, neste novo sentido, significa o conhecimento como uma coisa útil, como meio para a obtenção de resultados sociais e econômicos”. Em sentido análogo, fala-se em capital-informação: DANTAS, Marcos. A lógica do capital-informação: a fragmentação dos monopólios e a monopolização dos fragmentos num mundo de comunicações globais. Rio de Janeiro: Contraponto, 2002. p. 144.

[45] ZUBOFF, Shoshana. Big Other: Surveillance Capitalism and the Prospects of an Information Civilization. Journal of Information Technology, 04 abr. 2015, p. 77. Disponível em: <https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2594754>.

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