Morituri Mortuis

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Eis um artigo – melhor seria dizer um ensaio – fora de tópico (off topic): espera-se por aqui que eu fale de Direito Empresarial ou, quando muito, de Direito Privado. Mas eis que me veio essa necessidade de falar do que estamos vivendo. Estou angustiado com tudo isso. Depois, voltarei para falar de Direito Privado.

Haverá de se tornar passado um dia. É presente só por agora. Irá passar. Mas se as dores e desesperos passam, os escritos ficam: “scripta manent”. Como me disse um amigo, o latim é uma língua morta que serve para assustar os vivos. Daí o título deste ensaio. Morituri, em latim, são aqueles que estão por morrer. Por isso a frase que encabeça o pórtico de entrada do Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte: morituri mortuis”: dos que vão morrer para os que estão mortos.

Mas vim aqui para falar com aqueles que ainda não nasceram. Ei, você que vem pesquisar notícias e textos sobre 2021! Nós vivemos tudo isso; quero dizer, tudo aquilo: a pandemia de covid-19. Vivemos e morremos. Deixe-me lhe contar como estávamos quando nos aproximamos da terrível marca de quatro mil mortos por dia. Ruim situar-se assim, né? Mas era a vida nos tempos do coronavírus, começando minhas brincadeiras mórbidas com Gabriel Garcia Marquez, o Gabo.

O bizarro é que havia farta literatura, técnica e ficcional, sobre a peste. Isso para não falar em documentários e mesmo filmes. E a peste, um dos cavalheiros que João colocou no Apocalipse, foram tantas: negra (bubônica), febre amarela, cólera, a gripe espanhola (que não era de Espanha, sabe-se hoje, mas talvez do Kansas, nos EUA, pelo que se investiga). Conhecíamos a peste de ler, ver e ouvir. Mas não tínhamos vivido isso, embora muitos arautos avisassem: voltará.

Voltou: 2020. Enfim, agora é 2021 e vivemos a peste. Melhor: para você que me lê aí, do futuro: vivíamos a peste em 2021. Afinal, não quero me esquecer: haverá de passar um dia. Esse é um texto escrito no presente, mas que quer ser um texto do passado, do que já passou, do que já acabou.

Assustamo-nos quando foram centenas de mortos num dia. Mas então vieram os mil. Passaram os mil e meio, os dois; os dois mil e meio. E poderia ser pior? Claro que sim. Para além da peste, vivíamos um histerismo político de dar nos nervos. Uma certeza inabalável de extremos opostos e insanos que eram gritados por tudo enquanto era lugar e mostrava um tecido social roto, puído, imundo. Um pano de chão social incapaz de encontrar uma unidade mínima, mesmo quando uma pandemia oferecia tal oportunidade: unam-se para se salvar, tolos!

Não! Os hospitais anunciavam que não havia mais lugar para ninguém, as pessoas morriam sufocadas esperando uma vaga, mas o povo continuava achando mais importante se ofender entre “mitos”:

– O Bolsonaro!

– O Lula!

Uma peste de cegueira social que lembrava o ensaio de José Saramago. Saúde e vidas pensadas como mero capital político: 2022!! 2022!! Mortos por dia? Não. Esse número já foi superado. As eleições presidenciais. A política parecia ser mais importante do que a vida das pessoas que, enfim, morriam como mariposas na fogueira. Se bem que não: a politicagem. Política, mesmo, é outra coisa, é bem diverso. A politicagem num Estado que, em seus três poderes, vai se desmoronando institucionalmente na mesma toada em que se vê medíocres assumirem funções para as quais nunca tiverem estatura intelectual ou moral. Tempos difíceis de suportar. Por sorte, me exilei numa história de Machado de Assis e outra de Umberto Eco e outra de… eu me exilei.

O mundo foi se livrando do Sars Cov 2 e já se ocupando de suas variantes e, aqui no Brasil, nós nos entregávamos às paixões políticas mais rasteiras e cretinas. A derrota da razão e da lógica. A vitória da devoção politiqueira que embebeda e enlouquece. Nossa pior praga era a estupidez coletiva.

O pior é que os livros e os filmes já tinham falado dos estragos dessas polarizações políticas imbecis e daqueles que nelas surfam à torto e à destra. Nossos grandes (!?) homens foram múltiplos, não é, Solano Lopes? Esse escolhi com cuidado. Pensei em… ou… Melhor não. E me arrisquei: melhor seria Papa Doc. Há sempre vencedores sórdidos das polarizações que rasgam o tecido social: lobos que gritam o caminho ao rebanho, seja à direita, seja à esquerda. E os cordeiros balem ofensas mútuas.

Era o que vivíamos aqui em plena pandemia. Nas tais “redes sociais”, hordas daqui e de lá envergavam suas bordunas e tacapes, batendo sem piedade, desejam o prazer do crânio alheio estilhaçado, os miolos expostos. E a realidade ali, gritando mazelas enquanto a turba ignorante se dividia entre aplausos e ofensas politiqueiras. E houve um tempo em que achávamos que eram os torcedores de futebol, só eles, a comprovação do nosso primitivismo, espancando-se (esfaqueando-se, alvejando-se) por que atleticanos ou cruzeirenses.

O exílio na literatura ficcional já não me salvava. A loucura lá de fora invadia a tudo. Tempos horríveis.

Mas vamos voltar ao usar o verbo no pretérito. É preciso manter a fé: haverá de passar um dia. Não vou usar o verbo no presente: quero que isso seja passado, quero que tenha passado, que acabe.

Quando me assentei para escrever isto aqui, eu estava cansado. Muito cansado. Mas não um cansaço físico ou mental, embora meus olhos ardessem qual noite não-dormida. Estava emocionalmente cansado. O eco das 3.000 mortes era a projeção de 4.000 mortos. E se pegasse, não haveria leito. Escrevi para um amigo paulista: “sinto-me um figurante de ‘Cem Anos de Solidão’; não figurante de filme, que tem ao menos cara; figurante de livro, que não é mais do que um implicado.”

Isso. No realismo-fantástico de Gabriel Garcia Marquez, há incontáveis desses implicados sem nome. O enredo é sanguinário em muitas passagens já que sanguinários somos nós, os humanos. A historiografia pode testemunhar. Pois é isso: sou um ninguém no meio da peste. Há uma figuração que está implícita nos plurais (os doentes, os intubados, os mortos) e nos substantivos coletivos (a população, a sociedade, o povo, o Brasil). Não tenho nome nessa pandemia. Não sou ninguém e me encolho para não me tornar menos: um em meio a um número; quer ver? No dia 17 de março de 2021, o país registrou 3.149 óbitos. 3.149 ninguéns. Que Deus os receba em sua misericórdia.

Aos milhares de alguéns que a covid-19 levou do Brasil. Morituri vos salutant: os que vão morrer vos saúdam.

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