Kleroterion: a salvação do Brasil

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Não faz um mês, a Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte recusou a aprovação de um financiamento para a realização de obras na região de Venda Nova, apesar de um consenso de que a intervenção é absolutamente necessária. Na prática, o parlamento municipal condenou os moradores da região a inundações e afogamentos. A imprensa chegou a noticiar que seria uma iniciativa da “bancada do Deputado Federal Marcelo Aro”. Não um órgão, vários. Existiria isso! Uma bancada de vereadores sendo liderada por deputado federal. Mas seria ainda pior. O que se disse – veja bem, apenas estou reproduzindo o que li e ouvi! Não sou fonte, mas analista! – foi que o objetivo da aludida bancada (uma deputação com reflexos na vereança!) seria mostrar força contra o prefeito Alexandre Kalil, de quem se tornara adversário político.

Valei-me minha Nossa Senhora de Itaúna. A força que o deputado federal quer demonstrar para o prefeito deve ser a força hidráulica do Córrego Vilarinho, por certo. Mas… espera aí. Sabe-se que o prefeito mora no Bairro de Lourdes pois é lá que se realizam os buzinaços por aqueles que, não entendendo como se faz a transmissão de um vírus, são contra a determinação de medidas de contenção de circulação em Belo Horizonte, embora saibamos que medidas mais duras são adotas em Paris, Madri, Londres. Então, a força hidráulica do córrego não será sentida pelo prefeito. Serão apenas os vendanovenses a senti-la e, quero lembrar, morrem uns dois ou três por ano ali, afogados. A força dos vereadores e seu líder deputado federal será sentida pelo povo.

O pior é que não é um episódio isolado. Em todo o país, aqui, ali e acolá, há incontáveis episódios similares que ilustram uma realidade política triste: nossa democracia está doente. E muito doente. E não é uma doença nossa, brasileira. Pior: nem é uma doença nova. Esse vírus (outro!) é antiquíssimo – ah! que saudade do trema! A demagogia. A farsa. O engodo político de quem se diz isso, para ganhar votos, mas na verdade é aquilo ou aquiloutro. Votamos na foto, que nos dá certo ar de competência, capacidade, seriedade. Mas fotos não retratam verdades.

Não estou falando de Venda Nova, mas do Brasil e, quiçá, de alhures. Há milênios, em todo o mundo, vemos processos democráticos conduzirem às funções públicas pessoas que não estão capacitadas para tanto e, pior, que não mostram compromisso com o bem e o interesse públicos. Não digo que seja o caso de Beagá, embora alguém possa assim pensar (a tal liberdade de pensamento ou de consciência anda a sair de moda entre nós, o que é desesperador). Falo no geral, e não só no específico da vereança e da deputação mineiras. Não mais estou contido, nesta análise, à Capital das Alterosas e seus córregos. Elege-se mal mundo afora.

Esse é o ponto em que os monarquistas se alvoroçam e passam a berrar sua defesa da eleição uterina: escolhe-se pelo parto – para deixar as coisas em termos palatáveis – e, portanto, tudo se torna uma questão de alcova. Ahn? Chulo? Por que? Alcova é quarto de dormir, não mais que isso. Vem do árabe: al-qubbah: pequeno lugar reservado, cofre, onde se guarda o sono (ou as intimidades). No entanto, só para ficar nos sítios nobiliárquicos brasileiros, João VI enchia os bolsos de pedaços de frango frito e era notório pelo mau-odor. O filho, Pedro I, parecia acreditar que as maiores virtudes humanas não são a razão e a ética, mas a fornicação. Consequentemente, o parto não me parece ser um bom meio de eleição.

Os gregos, eles próprios, duvidaram dos eleitores como meio adequado de sustentar a democracia. Todos pensamos a democracia grega a partir do voto, mas nos esquecemos que o pavor que eles tinham da demagogia e dos tiranos que, a partir do voto das massas, usavam o Estado para o próprio benefício. Por isso criaram a kleroterion. Estou falando de uma máquina de eleição da Grécia clássica (séc. V a.C.). Quase ninguém se lembra dela mas, há milhares de anos antes da urna eletrônica, os atenienses tinham sua própria máquina de eleição. E seus restos estão expostos no Museu da Ágora Antiga, em Atenas. O mais interessante é que não se usava a máquina para colocar votos ou contabilizá-los. A máquina simplesmente sorteava os eleitos. Isso mesmo: sor-te-a-va!

– Sortear? Os vereadores? Os deputados? Os senadores?

– Pode-se até incluir prefeitos, governadores e o Presidente da República. As brigas de condomínio, por meio de aplicativos de mensagens, vão acabar na hora.

Aliás, grupos de condomínio, de escola, de trabalho, de família e tudo o mais. Loucura? Gozação? Olhem para os nossos parlamentos, de norte a sua do país, e me digam que há um risco de, por sorteio, chegar-se a composições piores do que aquelas que temos visto? Digam-me se sorteando 41 belorizontinos para ocupar as vagas na Câmara dos Vereadores, teríamos uma votação que iria se referendar por outro critério que não fosse a conveniência do Município diante dos desafios oferecidos pelas enchentes? Quantos sorteados iriam querer mostrar força política para o prefeito?

Por isso digo, entre louco e gozador: a kleroterion é a salvação do país. Brigas entre parentes, condôminos, colegas de trabalho sobre quem seria o melhor Presidente para 2022? Bolsonaro? Lula? Moro? Ciro? Que nada. Não briguem, crianças. Quem irá decidir é a máquina. Reeleição? Claro que é possível. Mas seria preciso muita sorte para ser “eleito” Presidente novamente: um nome entre os milhões de brasileiros aptos, todos com as mesmas chances. Claro que, em Serra da Saudade, município do Sudeste mineiro com menos de 1.000 habitantes, a reeleição seria mesmo provável. Mas ter um deputado ou senador reeleito seria salutarmente improvável. E ponha salutar nisso, a julgar pelo que vemos desde o Império e ao longo de toda a República.

O mais assustador é que, olhando para o currículo de nossos governantes e parlamentares – em todos os níveis da federação, em todas as unidades, quero deixar bem claro – não se pode afirmar qualquer problema com sorteio de pessoas inábeis. Elas já ocuparam e ocupam cargos no Executivo e no Legislativo.  E as próximas eleições por sufrágio universal seguirão elegendo todo tipo de gente, entre bons e maus, entre sérios e palhaços, entre santos e bandidos. Mais do que isso: com a kleroterion será possível finalmente dizer que todo poder emana do povo: a sociedade estará efetivamente representada nos governos e nos parlamentos. E se forem sorteados ladrões ou estupradores ou assassinos ou imorais ou incompetentes ou sei lá o quê, não se preocupem: pelas urnas já se elegeram gente de todos esses tipos.

Veja: o que chamamos atualmente de classe política é um conjunto de pessoas que são especializadas em… em… eleição. Dizem-se advogados, economistas, médicos, sacerdotes, trabalhadores; mas o que dominam mesmo é a arte de se elegerem. Em muitos casos, filhos de políticos que eram filhos de políticos que eram filhos de políticos. Gente que nunca viveu a realidade de nossas comunidades. Daí a proliferação de notas explicativas após a reação negativa dos munícipes belorizontinos. Os parlamentares municipais estavam com medo de perder votos. Não se preocupavam com a coisa certa, mas com as eleições. É… o sorteio tornará as coisas mais próximas do real.

Está rindo do quê, menino?

 

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2 respostas para “Kleroterion: a salvação do Brasil”

  1. Fernando disse:

    Que venha a Kleroterion!

  2. Gladston Mamede disse:

    Dr. Fernando, é claro que é apenas uma provocação. Mas que é desesperador pensar em termos de “pior do que está, não pode ficar”, lá isso é. Um forte abraço.
    Mamede.

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