Não me vacinem!

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Dia 24 de junho de 2021.

O céu escandaliza um azul indecente sobre a Capital das Alterosas e são 11:00h. Seria um dia lindo. Um sol sorridente, uma brisa que circula o perfume da Serra do Curral del Rei. Perfume de minério de ferro que é tão Minas Gerais. Nasci aqui, em Santa Efigênia. Vivo aqui por 55 anos.

Acordei amuado, afogado em poucas palavras, agindo lento. E foi assim até que estourei num choro convulsivo, choro ridículo para um homem com a minha idade e, se me perdoarem a honestidade: com a minha história. Não é melhor do que a história de ninguém, mas é a minha história e outros homens e mulheres de todas as idades carregam histórias que, sim, podem ser jogadas fora sem mais, nem menos, à custa da ignorância alheia.

Hoje é o meu dia de vacinar. O dia da primeira dose. Choro lembrando de centenas de milhares de mortos. Gente que poderia estar viva. Choro lembrando de milhares que ainda morrerão. Gente que poderia continuar viva. E não consigo parar. Vivemos tanta ignorância no último ano e tanto. Tanta ignorância. O mundo se revelou boçal. O país se revelou estúpido, cretino, canalha. E escolhi cuidadosamente essas palavras: estúpido, cretino, canalha.

Eis que tenho uma oportunidade: a primeira dose de uma chance de sobreviver à peste que, mundo afora, já teria ceifado a vida de 3.824.357 pessoas, em números oficiais, embora a Health Data Covid-19 do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), instituição ligada à University of Washington, estime que o número real de mortos seja muito, mas muito maior: 8.227.152 de seres humanos.

A doença é, até aqui, a primeira grande lição que o planeta dá à humanidade no III Milênio. E o mundo é um grande professor, conta-nos a história, essa fofoqueira tão amiga. Mas somos alunos rebeldes, pouco afeitos ao ensino da sabedoria e, por guerras, poluição, ganância, ainda temos aulas semeadas por nossa imbecilidade. Uma desgrameira da moléstia, um sofrimento desesperador. A humanidade não é racional. É cruel. Ela não afirma a razão, mas usa-a para negá-la. Orgulhamo-nos de nossa ignorância grosseira e rude, em tacapes, espadas, pistolas, bombas. O pior vírus do mundo se chama ser humano.

Ninguém vai me entender: tenho a chance de ser vacinado e estou assim? Estou fulo porque chegou a minha vez? Não deveria estar radiante? Não deveria estar lá, na fila, braço ansioso, gozando minha oportunidade? Não se preocupe, eu vou. Estou indo. Só vou acabar de escrever isso aqui e vou. Antes do almoço. Não se preocupe.

Só preciso parar de chorar. Só preciso parar de me lembrar de todos os que conheci e estão mortos. Lembro-me deles vivos, entende? E são algumas dezenas, não os milhares daqui e os milhões de tudo em quanto é canto. E eu tenho uma chance. Uma chance que poderia e deveria ter sido dada há muito, há todos, sem mesquinharia. E houve mesquinharia. Muita. E há mesquinharia. Muita.

Não é um texto bom. É o texto de um homem que se pergunta, aos 55 anos de idade, se realmente tem esse direito. Porque há os de 54, 53, 52, 51. Porque há gente que mais merece, que mais deveria. Porque morro de medo do que será viver se perder ainda mais conhecidos. Porque chorei de alívio quando vacinaram minha filha, estudante de Medicina, que trabalha como voluntária num ambulatório. Porque chorei de alívio quando vacinaram o meu filho, que é professor. Mas porque ainda tenho uma filha, 20 anos, que sabe Deus quando será vacinada.

Não me vacinem! Vacinem a minha filha. Vacinem Roberta. Ela é mais importante. Ela vale mais. Talvez não para quem diz: você de 55 anos. Mas vale mais para mim. E isso é quanto me basta. Não é justo vacinar dizer a um pai que ele deve se vacinar e deixar aos seus filhos sem vacina. Não é justo. Mas aprendemos nestes dois anos que a duvidar de Justiça, né?

No fim das contas, este é um texto sobre um fato simples: sim, todos os brasileiros já poderiam estar vacinados. Eu não precisaria estar com um medo de pai – medo? um pavor! – na hora em que receberei minha primeira dose.

Meu coração está com todos aqueles que perderam alguém. Deus acolha as almas que partiram. Deus console os corações que ficaram. Deus nos livre e guarde dos sofrimentos que a ignorância nos impõe.

 

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3 respostas para “Não me vacinem!”

  1. Adélia disse:

    Prof.Gladston, texto maravilhoso, pra refletir, gratidão!!!!

  2. Gladston Mamede disse:

    Dra. Adélia, muito obrigado. Tempos difíceis. Deus olhe por todos nós. Um abraço.

  3. Etieny Samuel Teixeira Rodrigues disse:

    Professor, tenho 20 anos de idade e ainda estou no meio do curso de Direito. Nunca pensei que teria o desprazer de ver tanta cretinice, canalhice e delinquência imperando na sociedade brasileira. Neofascistas se encontram aos bandos: ignoram as regras mínimas de civilidade, desprezam o Estado Democrático de Direito e elevam a sua estupidez ao grau de opinião viável que deva ser aceita pela sociedade democrática.
    Esse texto é incrível pois, para além da qualidade literária, toca de maneira cirúrgica nesse caos em que vivemos: demonstra que os mortos não são ideologia, que a pandemia mata e que a vacina é um imperativo que deveria ter sido buscado desde há muito.
    Espero que possamos, pelo menos a médio prazo, sair do fundo desse poço. Muito obrigado por nos proporcionar esse texto.

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